A fabricação de ídolos e as personalidades de aluguel

          Ao morrer, Hugo Chávez se tornou mártir da liberdade. O ditador que dedicou todos os seus mandatos consecutivos para reprimir a liberdade na Venezuela, se transfigurou, de uma hora para a outra, em  símbolo da libertação dos povos. Do mesmo modo, o cantor Chorão, que vociferava palavras de ordem proletária contra todo o senso estético e refinamento que considerava burguês, se tornou, após a sua morte, o poeta de uma geração. O que há em comum nesses dois exemplos é a ignorância completa do significado real das palavras liberdade e arte. Mas estes não são exemplos isolados de inversão de valores ou perversão da linguagem. Esta tendência se espalha em quase todas as frentes de luta revolucionária, a política, a cultura e, porque não, a religião.

            Recentemente ouvi, em uma missa, um pároco referir-se à renúncia do Papa Bento XVI como o reconhecimento de incapacidade do pontífice em responder às mudanças que a Igreja necessitava. Com isso, o sacerdote não só falseou os motivos da renúncia do Santo Padre como também perverteu as ações da vida de um dos teólogos mais críticos das ideologias modernistas no século XX, tornando-o um líder impulsionador do tipo de revolução que ele próprio combateu. Ao apropriar-se da força e credibilidade do teólogo, o padre inverteu toda a luta desse papa, usando-o para legitimar suas opiniões privadas.

Ao contrário, a renúncia do Papa foi um ato de quem busca, na verdade, barrar o avanço modernista na Igreja. Esta é a interpretação mais correta, não só confirmada pelas palavras do papa, mas pela percepção de pessoas que o conhecem profundamente e acompanham a sua trajetória. As teologias progressistas representadas pelas opiniões de alguns padres defendem uma “adequação” da Igreja aos “novos tempos” como se todo o progressismo de nossos dias tivessem em si algo de novo.

Quem quer que estude um pouco a história do Cristianismo logo percebe que tudo o que se defende hoje em termos de permissividade pós-moderna, sexista, gayzista ou revolucionária, estava presente nas maiores heresias combatidas pela Igreja ao longo dos últimos dois mil anos. O problema da pedofilia, que hoje é jogado à responsabilidade dos papas, foi combatido com coragem pelo cristianismo quando era costume entre povos e culturas primitivas, até que a modernidade caísse, por seus próprios erros secularistas, no fosso de antigas superstições e desenterrasse esses costumes presentes nos mais baixos instintos e propensões diabólicas que acompanham o homem. O fato comprovado de que padres católicos são o menor grupo culpado de casos de pedofilia no mundo, é ofuscado pela mídia por meio de registros jornalísticos quantitativos, o que está longe de ser estatístico. O que está por trás das denúncias de pedofilia na Igreja é, não a punição dos pedófilos, mas a punição dos padres, para a final e desejada descriminalização dessa prática que historicamente só foi combatida pelo cristianismo. A acusação de pedofilia na Igreja é, portanto, a tentativa de tirar de cena o inimigo histórico da pedofilia (lembremos do artigo “Cem anos de pedofilia”, de Olavo de Carvalho, em 2002).

A apropriação da autoridade é um meio muito eficaz de se garantir a adesão de uma massa pouco instruída. Há hoje uma quase generalização deste uso do argumento de autoridade. Do mesmo modo como um jornalista que cita uma pesquisa científica ganha para si grande parte da credibilidade da audiência, um padre que apela às palavras do papa, ganha automaticamente o apreço do rebanho. Mas ao abusar da posição ou valor simbólico de uma personalidade para seus fins particulares ou causa de grupos contrários àquela pessoa, a desonestidade é óbvia. Ora, até mesmo Hugo Chávez e o cantor Chorão mereciam este mínimo de justiça, embora o presidente venezuelano fosse mais afeito às mentiras a seu respeito.

Assim, são mais honestos os padres que atacam Bento XVI e o acusam de conservador.

A estratégia de inversão de papéis é, portanto, uma renúncia à realidade. Pouco importa contra o que se lutou ou se está lutando. O que importa é o uso que se fará das palavras dentro do quadro de necessidades e demandas da ideologia, ditada sempre por anseios que estão no corpo, no mundo, na carne, instrumentos daquele que as adora. O subjetivismo histórico e jornalístico faz do outro um mero instrumento de luta pelo poder, tal como a vida do feto que é abortada em benefício da vida de prazer sexual.

O Papa Bento XVI disse certa vez que a espiritualidade no mundo moderno não caiu quantitativamente, mas qualitativamente. Não é o materialismo o pior inimigo do homem, mas o espiritualismo que busca a salvação em detrimento da matéria, isto é, no uso utilitário dos bens materiais para a transcendência. Em termos revolucionários, é o uso do corpo, das drogas, do mal, da violência e, consequentemente, das ideias, para os fins do prazer hedonista e de confortos psicológicos, bens que terminaram por substituir a velha e ultrapassada ideia da Salvação. São as portas do inferno que permanecem abertas.

Em uma situação dessas, não espanta que a política sirva como simples instrumento do poder, a cultura seja a esfera de legitimação dos desejos subjetivos e a religião torne-se um mero conjunto de doutrinas vazias preenchidas pelos anseios da opinião pública.

Tanto Chavez quanto o cantor Chorão, mortos nos últimos dois dias, deixaram uma história de luta, respectivamente contra a liberdade e o bom senso estético, tal como o papa que deixou o legado de resistência contra a invasão da Igreja pelo mundo. Seria bom que para ambos se fizesse justiça. Mas isso demonstra que até mesmo o conceito de justiça é pervertido para o uso das pessoas como ídolos pré-fabricados, verdadeiras personalidades de aluguel.

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