O caos e a dialética dos efeitos

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— Um dos pioneiros no estudo dos efeitos de pesquisas de opinião foi Paul Lazarsfeld, no campo de estudos denominado Mass Communication Research, uma soma de contribuições de várias escolas de pesquisas, historicamente ligadas ao financiamento da Fundação Rockefeller —

Por Cristian Derosa

O primeiro resultado da pesquisa de opinião do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) tentava demonstrar um povo machista e violento, o que a esquerda buscou identificar imediatamente com um conservadorismo. Daquele primeiro resultado vieram inúmeras manifestações de políticos, incluindo o próprio ex-presidente Lula, chamando a atenção para o perigo representado pelos supostos 46% da população. Na carona do IPEA, impulsionou-se votações de leis sobre violência doméstica que a relacionavam com o machismo da sociedade. Estas leis, por sua vez, já estão servindo de modelo para a inclusão da ideologia de gênero não mais somente no novo Plano Nacional de Educação, mas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o que terá caráter permanente. O extenso uso político e militante daqueles primeiros resultados mostra o intuito dessa verdadeira operação de engenharia social.

O que realmente levou o instituto submetido à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, a desmentir a farsa, ainda não se sabe. Mas até disso a militância parece se beneficiar, já que uma parcela pequena e burra da direita apressou-se em corroborar aquela cifra absurda que colocava a população brasileira como apoiadora da violência contra a mulher. Pequena e burra, sim, mas que para a esquerda sempre terá sua importância na amostragem de conservadorismo útil para justificar o avanço revolucionário. Isso parece indicar o quanto esta esquerda se mostra preparada para se utilizar do caos mental gerado por ela mesma.

Uma das coisas mais comuns e regulares do século XX foram as pesquisas de opinião com fins de engenharia social que partiam da crença de que as mensagens através da mídia podiam funcionar como agulhas hipodérmicas, metáfora biológica que, embora fosse insuficiente para explicar a complexidade do processo, foram suficientes para impulsionar os estudos cada vez mais detalhados da psicologia das massas. É claro que a engenharia social nunca foi simples e eficaz como uma injeção (sempre teve mais riscos que a vacina do HPV), mas não se pode subestimar as mudanças sociais que o crescimento da influência dos meios na vida das pessoas acabou provocando. De modo geral, as pessoas hoje são bem mais dependentes da mídia do que em 1920, quando iniciavam-se os estudos de mídia. Mas já muito cedo esses estudos proporcionaram avanços espetaculares no controle das massas.

A divulgação de uma pesquisa de opinião pela mídia representa a oportunidade de comunicar ao público o que ele mesmo pensa a respeito dos mais variados assuntos. Muitos estudiosos ligados a grandes fundações, partidos políticos, órgãos de comunicação governamental, etc, perceberam rapidamente o potencial deste tipo de coisa, afinal, a opinião pública, ou o que se crê ser a opinião pública, é a autoridade máxima no sistema democrático. Isso faz dela um local de competição dos mais variados agentes históricos. Nenhum foi tão eficaz nos últimos anos, porém, que os globalistas representados pelas grandes fundações financiadoras dessas pesquisas.

Um dos pioneiros no estudo dos efeitos de pesquisas de opinião foi Paul Lazarsfeld, no campo de estudos denominado Mass Communication Research, uma soma de contribuições de várias escolas de pesquisas, historicamente ligadas ao financiamento da Fundação Rockefeller. Junto dele, Kurt Lewin, Carl Hovland e Wright Mills, entre outros, fizeram avançar os estudos psicossociais de um modo que a população consumidora de mídia dificilmente imaginaria. Pior do que isso: o descaso dos próprios comunicadores com estes estudos, aliado à constante desatenção sobre os agentes históricos que detém esses conhecimentos e meios de utilizá-los, deixa o trabalho dos engenheiros sociais ridiculamente fácil.

Lazarsfeld recorreu à técnica de amostragem repetida para estudar os estágios sucessivos da tomada de decisão, incluindo as camadas de mudança de opinião que a possibilitavam. Buscou fazer pesquisas de opinião para testar os resultados e implementar em áreas como eleições políticas. Utilizava, por exemplo, processos de decisão do uso de uma máquina ou adubos por agricultores, um bem de consumo, prática higiênica ou tecnologia nova. Estas pesquisas orientaram o estabelecimento de categorias importantes como os degraus sucessivos pelos quais devia passar toda adoção de um novo produto ou comportamento. Foi a chamada Teoria do Two-step flow, que consiste de dois degraus básicos: primeiro degrau: pessoas relativamente bem informadas, porque diretamente expostas à mídia; e segundo degrau: pessoas que frequentam menos a mídia e dependem dos primeiros para obter informação. É fácil percebermos esses degraus em nosso dia-a-dia. A pesquisa do IPEA, por exemplo, só precisou mobilizar uma parcela do público a protestar com a frase “não mereço ser estuprada”, isto é, o primeiro degrau.

A ideia do líder de opinião (primeiro degrau) foi essencial para se compreender o processo de mudança pela mídia, o que coincidia com muitas pesquisas já feitas anteriormente. Lazarsfeld uniu estes estudos aos já existentes no campo do marketing, como o modelo AIDA (Atenção, Interesse, Desejo, Ação/Aquisição), isto é, captar a atenção, suscitar o interesse, estimular o desejo e passar à ação (comportamento) ou aquisição (consumo). No aspecto político, não é diferente do consumo, pois o desejo influi na necessidade de socialização que o engajamento político proporciona, o intento moderno da eficiência democrática, participação política, etc.

Estudantes formados por Lazarsfeld se tornaram verdadeiros “gurus” da indústria publicitária e seus estudos eram também aplicáveis à política. Trabalhava para grandes empresas e órgãos governamentais com considerável influência em muitos países. Seus laços com a comunidade internacional o tornaram o líder de uma espécie de “multinacional científica” ligada à mudança de comportamento do consumidor e do eleitor. Mas Lazarsfeld preocupava-se sobretudo com a propaganda e ainda não havia feito sua verdadeira virada à política. Isso veio a efeito a partir dos estudos de um outro pesquisador, o psicólogo também vienense Kurt Lewin (1890-1947). Lewin trouxe o fenômeno do formador, as “reações” e influências na decisão grupal por meio das “dinâmicas de grupo”, invenção sua. A família, a sala de aula, clube de jovens, grupo de trabalho, fábricas, etc, foram seus objetos de pesquisa. Seus livros, A teoria dinâmica da personalidade e Princípios da psicologia topológica, têm até hoje grande influência na psicologia.

Lewin foi um dos principais pesquisadores do Tavistock Institute, em Londres, órgão de pesquisa de controle mental que presta serviços a empresas e governos. Fundou, em 1945, o centro de pesquisas de dinâmica de grupo no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. A Segunda Guerra Mundial deu ao psicólogo a chance de testar as leis teorizadas por ele sobre a conduta grupal a serviço da mobilização para o esforço de guerra numa economia de escassez. Aperfeiçoou estratégias de persuasão visando a modificação da atitudes das donas-de-casa em matéria de regime alimentar. Nessas experiências, surge com mais precisão o conceito de gatekeeper, ou controlador do fluxo de informação, função que garante o “formador de opinião” informal. Lewin era também físico e matemático e introduziu uma série de estudos que chamou de topológicos, com vetores, diagramas, quadrados, círculos, figuras como sinais de adição e subtração para representar sua teoria do campo de experiências, ou seja, o espaço de vida dos indivíduos e as relações com o meio físico e social.

Indo bem mais além, Carl Hovland, também ligado ao Tavistock, explora mais diretamente os meios de comunicação, medindo a eficácia de filmes de propaganda para soldados americanos nos fronts do Pacífico e da Europa, efeitos sobre o moral das tropas, etc. Esses estudos de laboratório foram importantes para aumentar a eficácia de massa, por meio de experiências que faziam variar a “imagem do comunicador”, a natureza do conteúdo, entre outras coisas. O resultado foi um verdadeiro catálogo de receitas para o uso do bom persuasor e da mensagem persuasiva eficaz, conteúdos capazes de alterar o funcionamento psicológico do indivíduo e de levá-lo a realizar atos desejados pelo emissor de mensagens.

Diante de estudos como estes e vendo as multidões que respondem tão facilmente a estímulos da mídia, é possível compreender por que motivo as abordagens usuais sobre as teorias da comunicação de massa atualmente têm feito um esforço para diminuir o poder destas técnicas. As teses mais aceitas são aquelas que relativizam esse poder de persuasão e concedem ao público uma maior independência. Ora, uma parte importante de qualquer intuito de manipulação deve consistir justamente em atribuir toda a independência ao manipulado para distraí-lo das forças que buscam controlá-lo.

A revolução das esperanças crescentes

Em 1950, o professor de ciência política Daniel Lerner assumiu a direção de um projeto de estudos dirigido por Paul Lazarsfeld, no Bureau of Applied Social Reasearch de Colúmbia, do MIT, financiado pela rádio governamental Voz da América. O alvo da pesquisa eram seis países do Oriente Médio, entre eles o Irã governado por Mossaddegh, um nacionalista que favorecia aproximação com a União Soviética. O objetivo era medir a influência e reação do público à exposição de opiniões de rádios de alcance internacional como a BBC, Rádio Moscou e a Voz da América. Lerner propôs medir a mobilidade psicológica das opiniões favoráveis ou não à transição de um “estado tradicional” típico da região, para um estado de modernização, proposto pelo Ocidente e própria da personalidade moderna.

Este esforço de engenharia social pró-ocidente nos poderia fazer crer na ação conspiratória do “imperialismo” norte-americano. Importante, porém, levamos em consideração que Daniel Lerner foi um importante difusor de teorias cuja crença principal da transição de sociedades tradicionais para a chamada modernização, baseava-se na realização do que se chamou de “revolução das esperanças crescentes”, com a principal característica do abandono dos valores tradicionais para os valores intercambiantes da sociedade moderna, garantidora do “progresso ao alcance de todos”. Como professor de ciência política, é impossível que Lerner não soubesse que “esperanças crescentes” não geram ordem nem paz, mas caos e revolução permanente. Crenças como estas estão na base do anti-americanismo da esquerda norte-americana.

Não é difícil perceber o imenso potencial de uso dessa ideias para as operações de subversão social descritas por Yuri Bezmenov, nas quais as ideias e desejos do inimigo são estendidas ao seu extremo para gerar o colapso social. Afinal, o projeto de pesquisa chefiado por Lazarsfeld, do qual Lerner fazia parte, era financiado pela Fundação Rockefeller, cujas ideias muito se aproximam da tal “revolução das esperanças crescentes” e que detém hoje uma bela parte do controle do fluxo de informações por meio das grandes corporações de mídia internacionais.

Para terminar a sequência iniciada por Lazarsfeld, Lewin, Hovard e Lerner, citamos também Charles Wright Mills, que radicaliza a crítica ao capitalismo e, desistindo de toda a intenção meramente reformadora, defendia a pura engenharia social a partir do estudo das relações sociais com o chamado “triângulo do poder” (monopólios, forças armadas e Estado), examinados minuciosamente no livro Power Elite (1956). Mills se utiliza de análises marxistas críticas para o estudo da conexão entre cultura, poder e ideologias na estrutura social. A posterior influência dos teóricos da Escola de Frankfurt e o seu foco no aprofundamento das contradições capitalistas e ocidentais, deu à praxis da esquerda norte-americana novas possibilidades de mudança social que a pesquisa empírica funcionalista não havia conseguido. Essa contradição pode ser percebida nas próprias expressões trazidas por eles, como “indústria cultural” e “cultura de massa”, algo que na época provocava forte impressão ao unir palavras aparentemente opostas e conflitantes, que embora ironizassem a existência de uma alta cultura salvadora, diziam defendê-la. O paradigma de engenharia ordenadora dos funcionalistas não resistiu à crítica criativa, caótica e desintegradora dos frankfurtianos. Embora não fossem intelectualmente favoráveis à normatividade tecnicista dos engenheiros, a desilusão completa dos pensadores da Escola de Frankfurt quanto às necessidades e possibilidades de controle social e cultural criou, em pouco tempo, uma atmosfera intelectual caótica e destrutivamente crítica, cujos efeitos parecem ter facilitado em muito o trabalho da engenharia social.

A pesquisa fraudulenta do IPEA, segundo a qual a maioria do povo brasileiro parecia ser favorável ao estupro de mulheres que mostrassem o corpo, mesmo depois de desmentida, concorreu para efeitos que confirmavam a mentira, ao provocar indignação contra as mulheres que se apressaram na campanha do “não mereço ser estuprada”. Afinal, quando se propõe o caos, toda resposta é correta.

Diante de tantos estudos e pesquisas práticas realizados por tanto tempo, é impossível não pensarmos em como a estrutura social pode ter se tornado de alguma forma, ainda mais receptiva à influência midiática. A sociedade de caráter alterdirigido, referida por David Reisman em A multidão solitária, orienta-se por um entorno cada vez mais auto estimulado, o que talvez tornaria a velha metáfora da agulha hipodérmica uma hipótese otimista. À medida que acelera-se o processamento tecnológico da informação, as resposta aos estímulos parecem mais velozes e abrangentes, como uma verdadeira espiral caótica, onde até mesmo os efeitos colaterais das mensagens midiáticas nos farão implorar pelas aliviantes ordens dos engenheiros sociais.

 

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4 comentários em “O caos e a dialética dos efeitos”

  1. Já estou prevendo burros e raivosos gritarem, mas gostaria mesmo assim de postar um comentário.
    O comentário é simples e somente uma semelhança que achei ao procurar a biografia dos profissionais da manipulação social : Lazarsfeld, Kurt Lewin e Durkheim e Ron Miller são judeus.
    Deixando o preconceito de lado, por ser estudioso sobre a vida de alguns desses autores, achei interessante descobrir Lazarsfeld e Kurt Levin como um acadêmico.

  2. Tudo isso é pura bobagem. Todos os indivíduos possuem livre arbítrio. Todas as tentativas de controle das “massas” (existe isso?) só foram bem sucedidas quando os “controladores” fizeram aquilo que a maioria dos cidadãos desejavam. Ou quando usaram a violência! Abram os livros de História. O transcorrer histórico SEMPRE fugiu do controle dos seus hipotéticos controladores…Vejam o que está acontecendo AGORA no mundo inteiro. Qualquer criança sabe que os testes de laboratório que avaliam a eficácia da sugestão mental, SÓ FUNCIONA EM LABORATÓRIO. No mundo real, buscamos aquilo que nos interessa. Outra coisa que me causa nojo: a pretensa SUPERIORIDADE desses estudiosos do comportamento humanos, que nos analisam como se fôssemos ratos. Mas eles não são humanos? Não! Todos eles se consideram seres semi-divinos. Coisa de “elite pensante”…

    1. Caro, Robson. Este artigo é uma tentativa de levantar algumas das teorias e usos sobre técnicas de controle de massas que existem. Em nenhum momento disse que o controle é inevitável ou inescapável. Para escrever este artigo obviamente que não estava sob efeito desses estímulos, não acha? Certamente que não vão conseguir nunca controlar as mentes, mas por acaso isso seria motivo para não estudá-los? Você acha mesmo que é bobagem saber alguma coisa sobre todo o estudo que estes cientistas empreenderam durante décadas para nos controlar só porque este controle não funcionaria totalmente?

  3. Cristian, não aguento mais ler nos sites católicos/conservadores tantas teorias da conspiração. TODAS fracassaram. O problema dos utopistas, é que sempre negam a simples realidade do mundo físico, e a realidade humana. Olhe em volta, e analise tudo aquilo que está acontecendo no mundo, e em particular, no Brasil. NADA coincide com estas teorias. Nada.

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