Meios de transformação social (parte 2): Norbert Weiner e a matemática do caos

web_DER_Norbert Wiener--469x239Muitas das técnicas e inventos fabulosos para a manipulação das massas aperfeiçoados durante a Guerra Fria foram estabelecidos no período mais imediato à Segunda Guerra, época de sucessos técnicos nas áreas militares. Retornando algumas décadas antes de Sola Pool, em 1948, ano do lançamento do trabalho de Shannon sobre a Teoria Matemática da Comunicação, surge o livro Cybernetics or control and communication in the animal and machine, de Norbert Wiener. Muito mais imaginativo e revolucionário do que qualquer matemático ou cientista político que veio depois, Wiener previa que a matéria-prima da sociedade futura seria nada menos que a informação.

A sociedade da informação se torna uma verdadeira utopia baseada na ordenação perfeita das informações e dos fluxos de comunicação. Mas Weiner alerta para um temível obstáculo que essa nova utopia encontrará pela frente: a entropia. Segundo ele, este processo natural fundamental conduz tudo à desordem e ao caos. Quem pode salvar a humanidade desta desgraça? As máquinas. “A soma de informação em um sistema é a medida de seu grau de organização; a entropia é a medida de seu grau de desorganização; um é o negativo do outro”, diz Weiner.

Para que tudo funcione perfeitamente e alcancemos a tão sonhada sociedade da informação, Weiner defende a necessidade de que a comunicação não sofra censuras, barreiras ou interrupções do seu fluxo. Outra disfunção perigosa é a transformação da informação em mercadoria. Portanto, Weiner denuncia a apropriação dos meios de comunicação pelas mãos daqueles que só se preocupam com poder e com o dinheiro. Diferente de Shannon, Weiner arrisca mais palpites quanto ao futuro da sociedade em uma plataforma salvífica e redentora. Weiner é representativo de uma classe intelectual que quando não demonstrou tão claramente suas pretensões controladoras, trabalhou deliberadamente para quem o demonstrasse. Seus delírios cibernéticos estabelecem uma ligação fundamental entre os sistematizadores técnicos e os mais místicos poetas do caos.

Meu delírio tomou a forma de uma particular mistura de depressão e preocupação… de uma ansiedade sobre o status lógico do meu… trabalho. Para mim era impossível distinguir entre minha dor e dificuldade em respirar, um barulho da cortina e certos pontos até agora não resolvidos do problema em potencial no qual eu estava trabalhando. Não posso dizer que a dor se revelou como uma tensão matemática, ou o que a tensão matemática tenha sido simbolizou como dor: os dois estavam muito próximos para fazer tal separação significativa. No entanto, quando refleti sobre esse assunto mais tarde, eu me dei conta da possibilidade de que qualquer experiência pode agir como um símbolo temporário para uma situação matemática que ainda não tinha sido organizada e esclarecida. Também pude ver mais claro do que antes que um dos principais motivos que me levaram à matemática foi o desconforto ou mesmo a dor provocada por um contencioso matemático não resolvido. Eu até mesmo fiquei mais e mais consciente da necessidade de reduzir tal contencioso a termos reconhecíveis e semipermanentes antes de poder largá-lo e ir adiante em outra coisa1.

Apesar de parecer delírios sem nexo, o estudo de Weiner foi muito bem aproveitado. Podemos dizer que o esforço frustrado da matematização deu origem, entre outras coisas igualmente doentias, a um delírio de uma matemática misticamente caótica, cuja falta de exatidão e rigor é o que lhe concede um poder simbólico. Ele foi pioneiro no uso do termo cibernética, mas foi também piorneiro no desenvolvimento desta para soluções militares, área criadora de incontáveis invenções midiáticas. A Cibernética denota, tipicamente, o estudo interdisciplinar e o emprego estratégico dos processos de controle comunicativo em “sistemas complexos”. O termo cibernética, portanto, tem dois sentidos possíveis: o primeiro, ligado ao uso tecnológico e o segundo, chamado por Stephen Pfohl2 de cibernética social. Este último representando o campo de pesquisa do âmbito do controle social.

Weiner foi Ph.D. de Harvard, em matemática, aos 19 anos. Pioneiro na aplicação da matemática não-linear baseada estatisticamente aos problemas de causalidade circular e controle de feedback. Como parte do esforço de guerra, Wiener colaborou com Julian Bigelow e outros matemáticos reunidos sob o patrocínio do Laboratório de Radiação do MIT, dirigido por Warren Weaver, da Fundação Rockfeller, um projeto de alta prioridade comandado pelo Comitê de Pesquisa para Segurança Nacional dos EUA. Wiener e Bigelow fizeram usos inovadores e de uma complexidade sem precedentes dos teoremas ergódigos usados em física estatística e equações integrais, o que foi descrito como uma revolução na engenharia da comunicação computacional. Durante os anos finais da guerra, essa revolução provocou avanços significativos no design, produção e emprego estratégico de armas antiaéreas e de equipamento de bombardeio de precisão. Terminada a guerra, esses avanços destinaram-se a mudar o modo de vida.

Embora soe como excessiva matematização, a aplicação dessas descobertas à comunicação social foi importantíssima. O cálculo estatístico de resposta ou feedback comunicativo, entre outras possibilidades, utilizados em guerra, trouxeram novas experiências que consagraram teorias antes confinadas aos laboratórios ou ainda a papers acadêmicos. O esforço em detalhar e diminuir a margem de erro ou ruído nas comunicações entre equipamentos bélicos, radares e rádio, oportunizou descobertas impressionantes que depois podiam ser facilmente aplicadas à intermediação entre política e sociedade.

Isso porque, para Wiener, certos processos ocorrem tanto em animais quanto nos computadores de alta velocidade que a sua matemática ajudou a criar. Cada elemento ou indivíduo faz uso de “órgãos sensoriais” e de dispositivos de “memória” magnética. Juntos eles operam para produzir comparações contínuas as entre trocas de informação e de energia passadas e presentes. Em humanos e em outros animais, isso envolve aquilo que Wiener descreveu como “senso cinestésico”, que guarda um “registro das posições e tensões em seus músculos”. Nos novos computadores, essa função era controlada por uma combinação de rastreamento de informações e de mecanismos de gravação. Mas além da “comparação de estímulos voltados para objetivos” registrada e contínua, os processos de feedback cibernéticos envolvem algo mais interativo – “um fluxo recíproco” de “interação em duas vias entre o controlador e o controlado”. Isso se opera não só para comunicar influência do controlador para o controlado, mas também para comunicar de volta os dados dessa ação.

Com isso, a cibernética substitui o modelo simplista anterior, onde havia somente um fluxo de informação linear, por uma visão do processo comunicativo que transcende as mensagens, isto é, a influência da própria prática comunicativa neste processo. É como a adição de um terceiro elemento entre o emissor e o receptor, o que podemos chamar de meio. Mas este meio, agora, possui funções de informação sobre o emissor e o receptor, o que dá maior controle dos efeitos. Muito disso já havia sido pensado na crítica literária e na filosofia, mas nunca havia chegado de modo tão técnico e com aplicações funcionais para mentes que buscavam não mais a compreensão do processo mas o uso disso em uma atividade puramente técnica.

A “causalidade circular” imaginada por Weiner pode parecer mística demais para alguns (e de fato é), mas no contexto específico dos estudos dos efeitos da comunicação de massa, propõe uma compreensão mais profunda e esquemática da influência mútua entre os elementos e agentes com o meio utilizado ou escolhido, que também está submetido a mudanças e comportamentos modificáveis. Em outras palavras, Weiner compreendeu os elementos da comunicação não mais como sujeitos ou objetos exclusivamente, mas como sujeito-objeto. Mais do que isso: o próprio ambiente de comunicação, a situação de discurso, faz-se passível de transformação imperceptível interferindo no todo dos elementos. Não é preciso insistir muito para demonstrar a efetividade comunicativa de quem tem a noção do intercâmbio que o ambiente de comunicação pode sofrer e o controle dele, sob aqueles que meramente respondem a estímulos exteriores e interagem cegamente. A ambição destes estudos foi a de manter o quase total controle sobre o processo comunicativo justamente quando percebe-se a incontrolabilidade da comunicação, ou seja, utilizar o caos em benefício de um tipo de ordem.

De fato, diante da noção simplista anterior, que deixava de fora uma série de possibilidades de controle, estes estudos podem ter importantes êxitos, principalmente quando abre possibilidades do uso deliberado das variáveis incontroláveis do processo. Mais do que abrir uma porta para o que depois veio a se chamar de Inteligência Artificial, Weiner ampliou o espectro de compreensão da mente humana ao entender o funcionamento e o controle de componentes mecânicos e imaginativamente aplicá-los à biologia e posteriormente à psicologia das massas. O foco nas aplicações técnicas, ligadas às necessidades tecnológicas do setor das telecomunicações, início da informática, era dominante na época de Weiner e por isso grande parte do uso que foi dado às suas reflexões se deu neste aspecto.

Mas o seu pensamento motivou a reunião de outro grupo de pesquisadores americanos oriundos de áreas diversas como a antropologia, a linguística, matemática, sociologia, psiquiatria etc. Eles divergiam do uso costumeiramente técnico e pensavam uma forma mais abrangente de utilizar as descobertas de Weiner para compreensão dos fenômenos comunicativos. A “escola de Palo Alto” propunha o fim da teoria matemática, corrente dominante iniciada por Shannon, e defendiam que a comunicação era assunto das ciências humanas. E isso devia ser feito a partir dos estudos de Weiner, dos quais estes pesquisadores diziam ser seguidores. Estava gerado o interesse das humanidades pelo receptor e da sua complexidade, amparados por teorias matemáticas de causa e efeito, efetividade necessária à transformação social.

A história de Weiner é mais um capítulo da nossa infindável era das técnicas sociais e demonstra o quão perigosamente próxima pode estar a mentalidade técnica da mística utopia do controle total do ser humano.

1Norbert Weiner. Mathematics to the Technologies of Life and Death. Cambridge: MA MIT Press, 1980, p. 147-148

2Stephen Pfohl. O delírio cibernético de Norbert Weiner. Revista Famecos, n.15. (2001)

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