O buraco esquecido da rua

No jargão do jornalismo, “buraco de rua” é a típica pauta insignificante relegada aos inexperientes ou inexpressivos na atividade do relatório social jornalístico, mas que é o grosso do cotidiano das redações, o que o jornalista mais odeia quanto mais precisa fazê-lo. No entanto, mil anos de reportagens acumuladas sobre o descaso da prefeitura ou do estado com as ruas e a urbanização jamais produziriam um único retrato psicossocial do que causa esse fenômeno tipicamente brasileiro, que no fundo reflete a profunda fossa psicológica em que o Brasil está enfiado.

O buraco da rua não é o problema. O descaso político não é o problema. O problema está em nós, tanto naqueles que incomodam quanto nos que se sentem incomodados. O problema está no profundo senso de inferioridade diante da fatalidade de todo tipo de desgaste físico, degradação humana ou espiritual, a falta de esperança no homem e na humanidade como força de trabalho. Não é a toa que ao mesmo tempo que desistem da limpeza e do cuidado com o ambiente urbano, almejam um controle do equilíbrio de todo o ambiente da Terra. A busca neurótica pelo controle de tudo parece fruto de uma depressiva resignação diante da podridão e da sujeira que nos envolve. O Brasil é um aterro sanitário a céu aberto. É só olhar outros países para ver o quão atolados estamos no lixo produzido pelo homem e pela própria natureza.

Falo do Brasil no geral, mas coincidentemente penso nisso quando viajo ao meu estado, o Rio Grande do Sul, mais especificamente o litoral norte e a capital. A impressão que tenho é que o povo gaúcho é um povo que perdeu passivamente a luta contra a natureza, contrariando milênios de história de esforço e luta da humanidade. Todo tipo de desgaste físico do meio é tolerado resignadamente como algo inevitável ou de difícil resolução. É o mato que cresce às calçadas, a areia da praia que acumula-se nas ruas, o fungo que corre solto sobre prédios cuja história guarda glórias e vergonhas; os portões de ferro das residências destinados a proteger o patrimônio cedem bovinamente diante da invencibilidade da ferrugem.

Como eu disse, falo do Brasil, mas uso parte do Rio Grande como exemplo. Isso porque, como tenho dito, o pior preconceito sofrido pelos estados do Sul é aquele que os superestima, que os julga mais evoluídos. Se alguns sulistas ainda acreditam no legendário ditame de que o sul carrega o Brasil nas costas, devia cogitar a possibilidade destes estados serem na verdade o peso que mantém o país atado ao atraso.

Mas o que quero dizer é sobre a verdade por trás do buraco na rua, uma figura tão comum em todo o território nacional. Não é, como dizem, por culpa dos políticos. Nem dos burocratas. Sejam de quem for as mãos sobre as quais se encontram o problema em qualquer tempo, a alma do buraco é o homem. O desgaste e a degradação são humanos. Isso porque a queda, aquela que nos expulsou do Paraíso, sempre esteve viva e atuante sobre nós. Basta que natureza faça seu trabalho. Nossa natureza aponta para a baixeza e a indolência, mas também para o sublime e o eterno. Mas basta a natureza seguir seu curso e não ser interrompida que a fatal gravidade da entropia nos faz perecer.

Diferente do que foi pregado pela modernidade, o homem não é o controlador da natureza, mas parte dela. Como pode ele almejar o equilíbrio ecológico se esta desordem é parte da queda que fez sucumbir toda a criação ao rio carontico da degradação. O homem é o ordenador da natureza sim, mas daquela que o rodeia, daquela que é o seu próximo. Não a mera consciência social (ou socialista) de um dever cívico, mas o zelo com o trabalho que o mantém civilizado para o melhor exercício da sua humanidade. A natureza, como chama a ciência, é um instrumento e não um bem em si mesmo, pois se assim o fosse bastaria-nos o panteísmo dos filósofos hereges. É o utilitarismo dos modernistas que transforma o instrumento em coisa execrável e inumana. O instrumento é um presente. O instrumento é um meio.

Deus não nos concedeu um “equilíbrio ecológico” meramente físico, mas uma ordem divina que nos inclui e da qual pode excluir-se o meramente físico, o superficial. O buraco da rua, assim como tudo o que representa, é a renúncia à participação da ordem divina e a aceitação do caos da ação irracional da natureza do factível. Eis o motivo pelo qual o desleixo e a indolência são graves ofensas a Deus por meio de uma ofensa à própria condição humana.

A lei da entropia já nos devia dizer o suficiente sobre os mitos evolutivos e as crenças otimistas no futuro da humanidade. Também nos deveriam alertar sobre as expectativas apocalípticas que tornam o fim dos tempos algo tão inesperado. A decadência é a regra da natureza decaída para a qual o homem pode representar o sopro da ordem divina ou a simples resignação que compactua com o caos.

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