A negação da dialética

Idolatria da meia verdade

Julian Marias diz que o problema do feminismo foi fazer com que as mulheres tentassem realizar o pensamento ao invés de pensar a realidade, o que estaria mais próximo da praticidade feminina. Isso não faz a feminista menos feminina, mas fatalmente menos humana., um frankenstein existencial. A mulher é essencialmente mais prática que o homem e é provavelmente por isso que lhe foi dada como companheira. A tentação desse idealismo parece cada vez mais arraigado nos automatismos culturais em dias de homem-massa (ou mulher-massa?), embora já estivesse presente desde Adão e Eva.

Parece que o homem é mais dado a viver as ideias. É uma doença masculina, ainda que o seu extremo igualmente o desumanize por deixar de lado a complexidade do real.

Dom Quixote, de tanto ler romances de cavalaria, vestiu uma armadura de papelão e ninguém o convencia de que não era um bravo cavaleiro andante. Isso é que é viver de idéias. As idéias aceitam tudo e todos. Lembro disso quando vejo esquerdistas caricatos, militaristas chauvinistas, tradicionalistas radicais, evangélicos letristas, duguinistas “tradicionais”, monarquistas saudosistas, gaúchos propagandistas, patriotas tagarelas ou dandis literatos com seus geniais tiques originais. Todos a repetir em uníssono: só a ideia salva!

Mas a obra de Cervantes parece melhor descrever o homem como o resultado da dialética entre Quixote e Sancho Pança, seu fiel escudeiro. Todo Dom Quixote deve trazer consigo o seu próprio Sancho Pança, aquele que o devolve à realidade dos fatos e obstinadamente o tenta abrir os olhos, um tipo de pragmatismo sem o qual o homem aparta-se do mundo e perde o chão. Embora a companheira do sexo oposto o possa prestar essa ajuda (desde que não seja feminista), o homem individual deve ter em si essa dupla essência que tensiona mundo e ideia.

Esse quixotismo é uma espécie de busca por uma identidade perdida, algo que tanto individual quanto coletivamente se manifesta nas ideias, na adesão a uma estética ideológica, uma imagem do mundo. É sempre uma idolatria das imagens da realidade que substituem a própria realidade. É uma melodia cíclica com um mesmo ritmo que volta e volta ao mesmo ponto, mesmo que o momento seja diferente.

Precisamos das imagens e dos signos para operar na realidade, mas não os necessitamos maiores nem mais valiosos do que ela. Se for assim, nos convertem em idólatras e nos põe em confronto com o espelho. Afinal, uma busca já nasce perdida quando se dirige onde o objeto buscado definitivamente não está.

É o que acontece também na história do Brasil. A histórica e obstinada busca por uma identidade nacional brasileira, o que se repete regionalmente muitas vezes, deixa de fora o traço mais óbvio dessa identidade que é a própria obsessão construtiva e imaginária, que enfia goela abaixo de todos, ao ponto de viver de propaganda e rejeitar a realidade com um ódio a si mesmo que passou a chamar de cultura. O brasileiro erra tanto sobre o que é, que de repente diz até uma grande verdade sem saber quando repete mecanicamente: “sou brasileiro e não desisto nunca”. Não desiste de saber quem é.

E assim insiste e insiste em vestir-se com a primeira armadura de papelão que se lhe ofereça o mercado lúdico das imagens disponíveis.

Essas imagens não são escolhidas somente por comparação, pois a comparação seria ainda uma saída de si mesmo. Buscam vestir-se com os olhos dos outros, mas naquilo que gostaria que outros vissem.

A busca da imagem de homem é a pior mentira. O homem por si é uma meia verdade, pois é um mero reflexo dela, feito à Sua imagem e semelhança.

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