Há verdade por trás de um estereótipo?

Walter Lippmann (1889-1974) escreveu sobre o estereótipo no livro Opinião Pública, de 1922. Ali ele fala sobre como este artifício jornalístico é uma eficiente técnica comunicativa, embora saibamos que em muitos casos pode ser utilizado como arma de guerra cultural.

A foto de um general fardado diante de um mapa postado na parede serviu muito bem em uma reportagem durante a Segunda Guerra Mundial para ilustrar a entrevista sobre estratégia militar concedida ao jornal. É claro que os jornalistas “forjaram” esta situação, pedindo que o general tirasse a foto diante do mapa na parede ao invés de no seu gabinete, o que daria uma ideia de que o general falava cinicamente a partir do conforto de seu gabinete enquanto jovens davam suas vidas pelo país muito distante dali. Este é um exemplo do uso de estereótipo no jornalismo, servindo tanto para informar mais rapidamente, pois a imagem ajuda na identificação do assunto e do personagem, como para evitar estereótipos falsos que distrairiam a comunicação de seu objetivo informativo.

O problema é quando o jornalismo se utiliza disso para construir uma caricatura com objetivo de denegrir alguém. No entanto é importante lembrarmos que algumas caricaturas são resumos ideais para personalidades reais que por definição são bem mais complexas. A caricatura é originalmente um meio de salientar características presentes em alguém, grupo ou classe ou numa ideia. Mas pode muito bem ser representado erroneamente de propósito. Então como estabelecer uma diferença?

Como qualquer registro da realidade, um texto se utiliza de dois elementos para ser escrito: elementos seletivos e construtivos. Seletivos são os que levaram o jornalista ou autor a escolher aquele objeto, selecionar ele no meio do caos da realidade. A escolha pode ser feita com base em elementos presentes que podem ser, por sua vez, também selecionados no objeto para ser descritos. Os construtivos dizem respeito ao modo como o autor vai descrever esses elementos previamente selecionados. O elemento construtivo é a parte criativa, que dá margem à ficção irreal ou à ficção real, poética, humorística, etc. Como eu disse, nem toda criação ficcional no jornalismo (ou relato pretensamente real) é mentiroso.

Esses dois elementos e suas potencialidades são muitas vezes observados pelos jornalistas e servem de critério de seleção para objetos. Há, portanto, meios de direcionar a abordagem jornalística através daquilo que chama a atenção do repórter, levando-o a escolher esta ou aquela fonte para determinado assunto.

Lembrando sempre que se o jornal fez uma caricatura de você, não aprece-se a denunciar manipulação sem antes observar se a caricatura feita não é de fato a maneira mais realista de descrevê-lo.

O estereótipo é uma técnica, uma foma sintética de descrição, que pode usar humor ou fantasia baseadas numa analogia mais ou menos realista. Estereotipar demais uma realidade cuja complexidade é importante para a compreensão séria, é e sempre será manipulação tendenciosa e maliciosa. Quando inexiste no autor ou jornalista qualquer código moral, tudo pode ser estereotipado pois nada é essencialmente sério ao ponto de ser referenciado à sua complexidade ou seriedade.

Por outro lado, isso não quer dizer que o estereótipo não é algo sério. Estereotipar alguém como tirano cuja maldade se esconde por meio de abordagens excessivamente compreensivistas pode ser um dever moral. Nenhum ser humano pode ser descrito em si mesmo como um estereótipo. No entanto, são incontáveis aqueles que podem sê-lo por questões inerentes à própria personalidade. Assim, um estereótipo pode ser “criado” simplesmente por meio da reflexão da complexidade de uma personalidade.

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