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Inquisição: mentiras e verdades que ainda escandalizam

Há ainda quem fique escandalizado quando católicos desmentem lendas midiáticas contra a Igreja Católica. Uma dessas lendas obviamente é a questão da Inquisição. Mas que verdades parecem de fato escandalizar?

O blogueiro Julio Severo costumeiramente se revolta com qualquer menção ao assunto, tentando sempre equiparar a Inquisição ao Holocausto e veladamente chamando católicos de nazistas. Com sua já tradicional retórica falaciosa, (que deve envergonhar a grande maioria dos protestantes) procura fazer um tipo de linchamento virtual de quem quer que mencione dados históricos que vilipendiem o valioso imaginário popular defendido por ele, depois corroborado por uma literatura histórica seletiva. As citações históricas das quais lança mão têm em comum o erro da dupla descontextualização: ignora o contexto das obras e o contexto do período histórico.

Confunde, de firme propósito, o contexto da mentalidade católica medieval e seus costumes com a instituição da Igreja, ao atribuir à Igreja os crimes cometidos por populares ou pelo estado, contra os quais justamente foi criado o Tribunal da Santa Inquisição. Sua confusão entre Igreja e estado é compreensível. Os países protestantes foram fundados por sociedades profundamente religiosas e é deles a base democrática sob a qual vivemos. Mas sem um magistério eclesiástico de competência estritamente espiritual, sua interpretação das Escrituras parece ter escorregado fatalmente para o âmbito político e, portanto, democrático e popular. O resultado positivo histórico parece ter sido a longa tradição norte-americana de defesa da fé por meio do estado. Mas isso obviamente esbarra em profundos problemas difíceis de resolver.

A Lei de Lynch e o racismo na América

Um dos grandes feitos da Santa Inquisição foi acabar com o costume historicamente consagrado dos linchamentos públicos, algo que remonta à antiguidade. Mas esta cultura da justiça popular permaneceu em algumas partes do mundo, especialmente na Alemanha e Grã Bretanha, onde a Igreja teve pouca influência.  Ganhou seu nome moderno graças à chamada Lei de Lynch, nos Estados Unidos, que permitia a prática do justiçamento contra bandidos e ladrões, mas também escravos fugitivos e defensores dos direitos dos negros, o que deu origem à Klu Klux Klan, historicamente apoiadores do partido Democrata por meio dos chamados “comitês de vigilância”. Para a historiadora norte-americana Amy Louise Wood, a partir de 1880, o linchamento se expandiu também para judeus, índios e imigrantes asiáticos.  A prática do linchamento ficou particularmente associada ao assassinato de negros no sul dos Estados Unidos. Em 1892, 161 negros foram linchados.

Ao contrário dos países católicos em que o Tribunal da Inquisição forneceu normas e princípios jurídicos baseados no direito romano para julgar adequadamente, na América protestante, o meio encontrado para frear este costume bárbaro foi a instituição da pena de morte pelo estado.

Esta é uma verdade sobre os EUA que deveria escandalizar igualmente católicos e protestantes.

Inquisição humanizou o direito penal

Devemos lembrar que a heresia era considerada um crime contra o estado e, por isso, foi o estado que pediu à Igreja que estudasse bases jurídicas para acabar com as condenações arbitrárias e injustas. O resultado mais perceptível ainda hoje é a instituição da penitenciária, originalmente locais onde o apenado cumpria penitências. As penitências representavam o grosso das penalidades impostas a hereges e criminosos. Só mesmo quando o indivíduo insistia em sua justificação, reafirmava hereticamente suas crenças e obstinava-se em confundi-las com as do Cristianismo, era então transferido ao “braço secular”, onde o estado cuidava de sua pena, o que era feito conforme o costume, aí sim de modo bastante bárbaro.

Também é bom lembrar que a Igreja tinha por propósito “salvaguardar a fé dos simples”. Nas palavras do Papa Emérito Bento XVI, “proteger os simples dos intelectuais”, heresiarcas que visavam confundir o povo e levá-los à danação eterna. Foi neste espírito que o então Papa deu um “cala boca” em Leonardo Boff.

Quem odeia a Inquisição?

A histórica propaganda protestante contra a Igreja usou sempre a Inquisição como figura maior, motivo pelo qual temos hoje essa imagem sobre o tema, criados por séculos de literatura anti-católica e décadas de filmes norte-americanos de mesmo teor. Mas se fizer uma busca pela internet sobre o assunto, verá também que há inúmeras seitas gnósticas e maçônicas que ecoam estes rumores e revoltam-se, entre outras coisas, com a extinção da seita gnóstica dos cátaros.

Também o neopaganismo crescente no norte da Europa odeia a Igreja Católica especialmente pelo tema da Inquisição. Na Noruega e Suécia, militantes neopagãos queimam igrejas e hostilizam católicos. O tema da Inquisição também é caro às feministas, que chegam a dizer que mulheres inocentes eram queimadas na fogueiras acusadas de serem bruxas, o que comprovaria o “ódio histórico da Igreja às mulheres”.

Evidentemente, houveram excessos como em todos os processos humanos são fatalmente falhos. Não precisamos nem falar dos acertos da inquisição protestante. Para enumerar seus erros, deixamos apenas essa lembrança da sua insistente propaganda que tem sido tão bem usada, não por inimigos dos católicos, mas de todo o cristianismo, para justificarem suas ideologias e seitas. Eis a quem ajudam estes propagandistas do imaginário popular fundido na cosmovisão da revista Super Interessante.

Diz-me a quem ajudas que te direi quem és.

Referências:

WOOD, Amy Louise. Lynching and spectacle : witnessing racial violence in America, 1890-1940. (http://www.worldcat.org/title/lynching-and-spectacle-witnessing-racial-violence-in-america-1890-1940/oclc/701719807/viewport)
AQUINO, Felipe. Uma história que não é contada.
GONZAGA, João Bernardino. A Inquisição em seu mundo.TOCQUEVILLE, Alexis de. Democracia na América.

 

 

O fantasma militar-policial e os obstáculos à inteligência brasileira

NOTA: Talvez este artigo soe inoportuno. Em uma época dominada pela esquerda, pode parecer impróprio criticar um pensamento tipicamente de direita, mas é antevendo o uso das fragilidades da mentalidade brasileira pela esquerda que arremeto contra o chavão, inimigo numero um da inteligência de qualquer cor.

Que brasileiro nunca disse ou no mínimo ouviu repetirem que todo político é bandido e que bandido bom é bandido morto. Parece que desde Floriano Peixoto, que fuzilou centenas de opositores, estas frases estão impressas na alma do brasileiro. É possível que a partir da Proclamação da República o brasileiro tenha desenvolvido uma adoração pela força bruta institucional, especialmente quando se trata da do braço forte e mão amiga das FFAA, força policial ou estatal por meio dos santos tentáculos do Poder Judiciário. Embora isso possa estar adormecido por décadas de antimilitarismo e ideologias anti policiais expressas pela mídia esquerdista, essas ideias aparecem de modo permanente na cultura brasileira.

A ideologia policial é o pensamento mais característico no Brasil. Manifesta-se em frases feitas e chavões que têm em comum um certo purismo moral, não raro aplicado seletivamente. Estes pensamentos aparecem de modo caótico no senso comum espalhados pelo país, movidos por uma sensação geral de injustiça. É como uma força quase física que atua no território nacional empurrando cada consciência a ignorar toda reflexão e sucumbir à lógica aparentemente irresistível dos lugares comuns.

Toda incomodidade diante da tensão entre oposições que geram alguma complexidade parece ser aliviada pela repetição dos chavões policialescos, onde o anseio punitivo parece manter certa coesão das personalidades. A sensação de injustiça, impunidade, é remediada pela convicção e certeza do funcionamento das instituições nacionais.

A ideologia policialesca brasileira é estatista em sua base. Possui brutal confiança no aparato jurídico e da aplicação da lei como garantia de realização da utopia do progresso, do rumo certo ao desenvolvimento nacional, o que só se dará por meios essencialmente materiais, não sem o efeito catalizador da moralidade pública.

A corrupção, para o brasileiro, é o grande inimigo da nação. Um monstro que devora e impede o predestinado progresso.

Desde a campanha do “Petróleo é nosso”, passando pelo medo da cobiça estrangeira da Amazônia, até a novíssima faceta da redemocratização da Terceira República, culminando com a luta contra o monstro da inflação, a caça aos marajás, etc. A ascensão da esquerda só não foi e não será completa enquanto bater de frente com essa ideologia popular. E ai está o grande perigo. Uma esquerda policialesca e militarista poderá ser a nossa ruína.

O Brasil foge da sua própria imagem como o diabo da Cruz. Nega a realidade da sua herança portuguesa na cultura ao passo que a vive e revive nos piores detalhes da política. Raymundo Faoro, no clássico da sociologia brasileira Os donos do poder, faz um diagnóstico incrivelmente realista da estrutura mental do brasileiro ao remontar à origem do estado português, no qual a ligação entre os reis e a terra fazia da sociedade um imenso rebanho de súditos fiéis. O paternalismo estatal é herdeiro da fidelidade monárquica que, embora o período imperial tenha tentado dissolver em um parlamentarismo, acabou se potencializando ao longo da República da Espada, a Velha, a Nova, a Terceira…

Todo o paternalismo republicano brasileiro vem do direito divino dos reis, que nos foi legado tão fortemente, justo por nunca ter sido vencido ou mesmo combatido no campo das idéias (campo aliás sem nenhuma tradição no país). O resultado é uma espécie de superstição estatista, na qual o poder é tanto mais venerado quanto mais desconhecida a sua origem. Perdida nos labirintos da história mental do Brasil, o poder que esteve tradicionalmente ligado á propriedade é alienado para a posse total do país e o culto revertido aos donos do poder encastelados no trono da alma brasileira.

A grande fonte de confusão política no Brasil parece ser a dúvida silenciosa: afinal, a quem pertence o país por direito? Os populistas e os oligarcas tentaram substituir o velho direito dos reis expropriados. A neurótica vontade de inventar o futuro por meio da ideologia do progresso parece ter sido o fruto dessa culpa por termos exilado o passado e, com ele, o Brasil de si mesmo. O Brasil é um país que nega e foge de si, a começar pela alegria do carnaval que tenta esconder a nossa natural tristeza portuguesa. Enquanto a beleza da herança cultural é negada, a consequência política dela permanece neurotizadamente presente.

Mas a visão do estado e do bem comum tornou-se supersticiosa e puritana. O político tornou-se aos poucos o símbolo da ineficácia e da corrupção. Com ele, a política, o debate e a própria inteligência. Assim, independe qualquer esforço de conciliação, pois embora o pragmatismo tenha sido o nosso poder moderador de acordo com Paulo Mercadante, permanece a rude revolta em favor do rei absoluto no subsolo moral de nossa consciência. E nesta, um puritanismo moralizante e autoritário tem lugar de teologia política, um sentimento de justiça a qualquer custo.

Uma vertente deste pensamento que coloca o mal no objeto e não na mão que o maneja, é aquele que busca contrapor-se ao demonizar o homem. O erro é o mesmo da superstição que vê no errante o erro, no pecado o demônio, no gato o azar. E por fim, no político vê a corrupção em forma de gente. Ou ainda no bandido individual vê toda a criminalidade que deve ser extirpada. A execução é a resposta mais óbvia para este tipo de lógica.

É ai que encontra paralelos assustadores com a mentalidade revolucionária. Embora os comunistas tenham no mundo se travestido de pacifistas e militantes de direitos humanos, seu intuito é e sempre será sanguinário. Mas o direitista brasileiro pode acabar optando pela via do fascismo stalinista sem perceber, como resposta ao disfarce pacifista dos nacional-socialistas do PT.

Na dúvida, clama pelas Forças Armadas, intervenção militar. Para isso, clama em caixa alta, em gritos e palavras de ordem. Ordem e progresso. O policialesco brasileiro não ama a sociedade brasileira, mas tudo aquilo que historicamente tentou se passar por ela. É isso que vê nas cores verde e amarelo.

Foi esta bandeira verde e amarela que exilou o Imperador e instituiu o golpe da República a partir de uma ditadura militarista que executou inimigos e por pouco não decapitou o próprio Dom Pedro como na França, é o que gostaria de ter feito o jacobino Floriano Peixoto. Não foi a mesma bandeira cultuada antes, aquela cujo verde representa a casa dos Bragança e o amarelo, os Habsburgo. O estado brasileiro precisou exorcizar a sua origem para poder reconstruir uma sociedade à sua imagem e semelhança.

A pior e mais atual consequência desta ideologia é a aposta nas instituições e na insistência em colocar todas as soluções nas mãos do estado, cujo instrumento para efetivá-las só pode ser a reunião de mais poderes. O nacionalismo, dizia Lênin, embora inimigo do socialismo, reúne incrível “reserva de energia revolucionária”, que pode ser usada quando for necessário. Mesmo que o nacionalismo brasileiro no fundo não exista, essa caricatura de nacionalismo com cores militaristas e estatistas, sempre foi suficiente para a submissão da sociedade aos que usurparam o poder. Não podemos esperar outra coisa de um país que foi erguido em gabinete.

Se não gostamos de socialistas que defendem bandidos utilizando os direitos humanos, não vamos querer estar aí para vermos os socialistas militaristas e policialescos colocando políticos nos paredões mais sanguinários em nome da soberania nacional, do estado forte e da mão amiga.

Arquétipos do cinismo nacional

Rafael DiógenesO Cinismo, na Grécia, foi uma escola filosófica, embora anti-filosófica, que se inspirava entre outras coisas na vida dos cães como modelo a ser seguido. Os cínicos brasileiro se assemelham em muito nessas disposições, embora tenham suas especificidades que os diferencia da propensão a qualquer reflexão.

Rosenstock-Huessy, em A Origem da Linguagem, diz que uma revolução começa com um problema de linguagem. Quando gerações, facções ou classes, não se compreendem, não falam mais a mesma língua, irrompe a revolução. Levando isso à literalidade dos conflitos que vemos no Brasil, podemos dizer que toda guerra civil é precedida por mudanças culturais, cujo pior aspecto é o da dissolução cognitiva, precedida por uma vertiginosa precipitação ao abismo da imoralidade mais profunda.

Mas este tipo de percepção está longe daquela ideia muito difundida ultimamente de que todos estão errados e malucos, brigando entre si como animais irracionais. Quem faz este tipo de queixa está somente tentando abrandar a própria indiferença dando-a um ar de neutralidade superior. Falo da guerra pura e literal, que tem a confusão como arma, mas que se caracteriza pela proeminência do mal objetivo, manifestado por movimentos que buscam isso declaradamente em suas teorias. Dizer que “há exageros de todos os lados” é fingir que não vê o mal, é omitir-se e tornar-se com isso parte do problema. E existem muitas formas diversas de se passar por este tipo de “isentão” superior.

O isentão cínico diz que está por cima do bem e do mal por não aderir a nenhum lado do conflito. Com isso, colabora ativamente com o pior dos lados, aquele que visa confundir e induzir ao erro.

Faz tempo que o Brasil está em guerra. Mas a guerra cultural tem essa característica de dissipar os antagonismos através de uma espécie de deterioração gradativa da cognição. Quando bem coordenadas, mídia e sistema educacional, juntos, se transformam em verdadeira arma de guerra, tornando os indivíduos meros propagandistas disfarçados de cínicos ou apolíticos. No fundo, o apolítico pratica o servilismo mais animalesco, como verdadeiras bestas puxando carroças cheias de lixo ideológico para seus mestres intelectuais que os açoitam dia e noite, num círculo infernal que tenta arrastar o país rumo ao despenhadeiro da loucura.

Apolítico

Falo dos cínicos porque há bem pouco tempo, no Brasil, esta era a principal face do esquerdista, manifestado pelo petista. Mas hoje há o cínico que se diz apolítico. Para ele, nada é nada e o tudo não existe. No fundo, é a crença no pressuposto marxista de que todo mundo age por uma ideologia igual e simetricamente, burgueses e proletários. Não que o cínico se importe com a injustiça. Não. Longe dele! Isso seria converter-se num hipócrita, já que para ele não há justiça. Para o cínico, todo mundo está perdendo tempo em existir e só ele próprio é que tem a presença de espírito de rir-se da falta de sentido da existência dos outros sem perceber que ri da própria incapacidade de ver a realidade. Ele não percebe a realidade porque desistiu voluntariamente dela, achando que com isso estava sendo o mais esperto e astuto de todos. O menos hipócrita.

Mas este cinismo é só a ponta do iceberg, é apenas uma marionete do relativismo cultural e moral, consequência de décadas de apatia cognitiva. Todo mundo tem um amigo que nunca estudou assunto nenhum mas que, de repente, neste momento de acirramento político, surge das sombras de sua ignorância munido de opiniões prontas e com alvo certo. Alvos que repetem coincidentemente as opiniões mais repetidas e os chavões mais batidos saídos de formadores de opinião da mídia ou da boca de totens acadêmicos.

Anti-corrupção

Há os que se atiram a jargões anti-corrupção, como se o roubo dos cofres públicos fosse crime muito pior do que os que atentam à vida humana por meio da adesão a ideologias assassinas. Escandalizam-se e bradam em afetada indignação com o desvio de verbas, a má gestão de obras, a irresponsabilidade fiscal, etc. Refugiam-se nestes assunto menores com medo de admitir o mal maior existente nas esferas mais sérias. Preferem brincar de analistas e repetir o tom dos formadores da mídia, que o fazem por estratégia política e não por convicção. Gostam de saber que um vereador desviou sacos de cimento da ponte do valão do bairro, e não dão a mínima se o país é governado por um organismo internacional que quer aprovar o aborto e destruir as famílias. Ama os números e está preocupadíssimo com a taxa de juros, enquanto em seus filhos aprendem na escolas sobre a variedade infinita das taras sexuais humanas e as possibilidades de experimentá-las.

Liberal

É comum ainda que esta espécie de cinismo isento manifeste suas ideias de modo irônico, sarcástico e por vezes com uma crueldade de dar inveja a esquerdistas acadêmicos acostumados à mendacidade mais torpe. Pois buscam representar voluntariamente o arquétipo criado pela esquerda. Quem recebeu uma educação marxista só pode, na melhor das hipóteses, tornar-se um liberal desprovido de toda moral. É assim que se faz uma guerra. Os homens quando confrontados com a ignorância do que deviam saber, encurralados por um estilo de vida omisso, tornam-se recalcados formidáveis. O liberalóide ou libertário, por exemplo, cínico por excelência, coloca-se a uma distância segura de todos os códigos morais para então julgá-los com a moralidade de aluguel que venera como a mais santa e imaculada das intenções.

O liberal só quer defender o mundo utópico de sua mente, que só existe por analogias pobres porque carecem do elemento mais importante para qualquer reconstrução racional da realidade: o ser humano. Embora diga falar em nome da “ação humana”, fala de uma ação abstrata que representa uma parcela ínfima das possibilidades humanas e, com isso, imagina possível um mundo em que só isso exista. Afinal, toda vantagem que possa existir no funcionamento econômico humano decorre, não de princípios econômicos, mas dos valores morais com os quais as pessoas o aplicaram na realidade.

Casto

Quase sempre o isentão, como tem sido chamado, apresenta-se sob variados trajes. A personalidade acuada por sua própria omissão e covardia não escolhe rótulo e pode se ocultar até mesmo em castas prelazias católicas, adornadas pelo erudito distanciamento que oculta, no fundo, o amor e a veneração que cultivam pelo empreguismo mais utilitarista, as posições sociais que angariaram mediante um concurso de indicações de seus caríssimos nobres colegas. O culto a admirados e admiradores são sua base psicológica cujo ícone pode ser representado pelo mercado, a tradição, a moral, a caridade… Mas que no fundo representam o amor pelo próprio traseiro, cheio de favores pendurados e prometidos. Diferente do cínico apolítico, este arquétipo não sabe que é cínico. Faz da sua omissa culpa interior um disfarce de humilde servilismo. Histericamente, dizem entregar-se a práticas religiosas para não sobrar-lhes tempo de fazer algum bem que não seja a indicação, o favorecimento dos seus caríssimos para algum lugar estratégico, de onde não fará nada além de manter-se omisso e enriquecendo, com a imagem pública bem protegida dos riscos de difamação e consequente perda do amado emprego público.

Nenhum destes arquétipos é cristão ou mesmo humano no sentido pleno da palavra. Apenas no sentido de sua miséria mais típica e característica, aquele que precipitou no pecado que decorreu a Queda. Embora diferente de Adão, não titubeia diante da baixeza. São ratos que se amontoam nos corredores apertados do labirinto de sua histeria, da sua neurótica busca por conforto. Animais que não fazem mais do que fugir da dor e buscar o prazer no alívio de suas consciências.

O isentão e o cínico, irmãos gêmeos e por vezes fundidos e confundidos, preferem sempre a desculpa que alivia a consciência do que o confronto com a tensão que os deprime. São no fundo pobres deprimidos e deprimentes, que precisam torcer a moralidade para aderir a ela sem constrangimento.

Os problemas morais e psicológicos desta classe de pessoas, embora sejam para eles um drama insolúvel e digno de nossa comiseração, servem bem ao intuito de um dos lados, casualmente o pior.

Desde o engomadinho que sai da missa maldizendo o excesso de pobres nas ruas, até o desleixado liberal que se vangloria de não se sua indiferença, estes arquétipos só podem existir devido um clima psicológico que põe o país inteiro refém de expedientes de pensamento abstrato, cuja máxima virtude é a adesão a mundos utópicos (mesmo que a utopia seja um mundo livre de utopias). Ambos os tipos estão muito abaixo de classificações de caráter social, como o de David Riesman, que propõe distinções conforme eras populacionais. Embora se aproximem do “alterdirigido”, aquele que se orienta pela própria carência de atenção do outro, este arquétipo nacional do anti-politizado é como um “baixodirigido”, isto é, orientado por baixo, pelo que é inferior. É o viciado na própria opinião que, já anestesiado pelas próprias e alheias mentiras, repete-as roboticamente conforme o desejo de parecer inteligente.

Faltou falar dos policialescos que gostam dos jargões “bandido bom é bandido morto”, clamam por intervenção militar, pintam-se de verde e amarelo, cantam o hino e tapam os ouvidos para as notícias ruins. A disposição a não saber do que não gosta, porém, está em todos os arquétipos do cinismo nacional.

 

Qual a real função de uma manifestação?

15marO alvo prioritário de qualquer ato público é, em todas as situações, a mídia. Isso porque é por meio dela que o governo ou líderes políticos irão tomar conhecimento das reivindicações.

Na década de 1920, Edward Bernays combinou com algumas debutantes que elas iriam juntas acender cigarros e fumar em um determinado local público. Ao mesmo tempo, despachou cartas aos jornais da cidade dizendo que haveria um protesto pelos direitos das mulheres. Evidentemente, as debutantes nada tinham a ver com isso. Mas os jornais correram para a praça pública e as cenas das jovens adolescentes fumando cigarros ganharam as capas da maioria dos jornais no dia seguinte. Bernays trabalhava para uma companhia de cigarros que pretendia aumentar as vendas, já que na época não era comum as mulheres fumarem.

Isso mostra como o papel da imprensa é até mais importante do que o do governo que vai fazer as mudanças reivindicadas. A imagem pública dos manifestantes é um fator essencial para a efetividade do conjunto da mensagem que deseja passar, tanto para o governo quanto para o restante da população. Afinal, aquelas pessoas que não foram protestar saberão tudo por meio dos jornais, TV, internet. E é por ali que formarão a sua opinião sobre as demandas dos atos públicos.

A função de uma manifestação, portanto, é mudar o entendimento do público sobre um ou mais tópicos públicos, forçando assim a classe política a tomar uma posição favorável a esse entendimento que o público terá. Isso só pode ser feito através do único canal que ambos utilizam para se informar: a mídia.

Isso quer dizer que todo o conteúdo gerado pelos manifestantes deve responder a pelo menos dois critérios básicos: à capacidade de compreensão dos jornalistas (levando em conta seu horizonte de consciência e percepção) e às normas editoriais, isto é, às condições profissionais dos veículos como tempo, legibilidade, disponibilidade, visibilidade, etc. Afinal, é necessário que os jornalistas além de compreenderem as mensagens, as possam publicar com efetividade e em tempo hábil.

O noticiário internacional também é alvo de manifestações, ainda mais quando vivemos em um continente dominado por uma facção continental de esquerda como o Foro de São Paulo. É necessário que outros países compreendam o que de fato está acontecendo em nosso país. Para isso, é importante observar de que modo eles vêem o Brasil e como alguns atos  podem reforçar ou contrariar a imagem que eles têm, vendo assim qual das duas opções é preferível para a causa em questão.

Se a imagem de um país constantemente em festa (como é costume) irá dispersar a seriedade do que está ocorrendo, é possível que se possa utilizar justamente este fator como elemento contraditório. Como, no país do carnaval, algo de repente tão sério acontece? Ou explorar a consequência moral do clima de festa, demonstrando que o país talvez esteja vivendo um inferno astral por conta disso e, com isso, chamar a atenção para o perigo dos governos que se utilizam do divertimento “pão e circo” para ludibriar suas populações. Isso é apenas um exemplo.

Mas a maior efetividade de um protesto está na mídia nacional, que vai formar no público a imagem do problema, da classe política e das soluções propostas, se houverem. A melhor manifestação, porém, não é aquela que oferece soluções claras, mas aquela que procura estabelecer a imagem mais realista possível do problema àquela parte da população que não tem o mesmo acesso às informações. Para isso, o canal da mídia deve ser estudado para evitar falsas impressões.

Mas para atacar verdadeiramente o problema, é necessário que os grupos envolvidos evitem dispersar em causas menores (ou infinitamente mais abrangentes, como a corrupção, etc), que por sua ingenuidade acabam passando ao público e à imprensa uma imagem tacanha e pouco efetiva. Se centenas de pessoas fossem às ruas para pedir o fim da calúnia e difamação, é provável que os jornais lhes dessem alguma atenção. Mas ficaria tão evidente a ingenuidade da demanda, que provavelmente as notícias sobre isso nem mesmo seriam lidas. Além do fato de que causas muito amplas podem ser aproveitadas por um maior número de causas cujos militantes estejam mais preparados para utilizá-las.

O mais importante nestes casos é saber reconhecer o quanto da mídia se tem sob controle, se pode de fato controlar a abordagem. É comum que se tenha uma visão um tanto otimista e até megalomaníaca em relação ao poder de influenciar a mídia. Isso acontece muito em movimentos políticos de direita.

É cada vez mais recomendável que estes movimentos tenham suas próprias agências de assessoria de imprensa improvisadas e que possam gerar conteúdo tão bons quanto os da mídia, de modo que ela se sinta tentada a utilizá-los para economizar tempo e trabalho. Ajudar a mídia a falar de você é o melhor caminho para que ela diga o que você quer que ela diga. Quem sabe até por algum senso de gratidão.

Outro caminho é gerar o medo na grande mídia. Pode ser essencial em determinada situações. Mas isso depende muito, como falamos, do nível de consciência que um movimento tem do seu poder de influenciar. A análise constante das notícias é uma arma importante para saber o que, de fato, os jornalistas sabem e a que espectro político eles pertencem. Isso ajuda a escolher os conteúdos, promover armadilhas e desmoralizar o trabalho da imprensa. Isso é bastante arriscado quando não se tem informação suficiente. É preciso saber muito mais do que a mídia e felizmente no Brasil isso não é tão difícil.

O trabalho mais importante na direção de ter um número eficiente de pessoas para qualquer manifestação é o esclarecimento. Ninguém deve ir a uma manifestação como idiota útil. Isso foi feito durante décadas pelos movimentos de esquerda e não pode nunca mais ser repetido. É preciso que as pessoas conheçam contra o que estão lutando e saibam dos perigos, pois só assim haverá um público realmente corajoso para enfrentar o que surgir pela frente.

Como identificar o politicamente correto

A maior utilidade de aprendermos a diferenciar os chavões politicamente corretos de verdadeiras reflexões é a de sanear nossas próprias opiniões e crenças. Depois — e só depois — é que podemos empreender o esforço de sanear as opiniões no entorno social. Isso porque naturalmente perceberemos que a maioria das nossas opiniões SÃO as do entorno social e não nossas, como pensamos.

A verdadeira reflexão parte da expressão e se dirige à compreensão do fenômeno real ao qual ela se refere. Os chavões se caracterizam por não fazer este caminho, mas permanecer no nível da expressão como se fossem a própria realidade. Palavras são tratadas como se expressassem perfeitamente o que se quer dizer, sem as dúvidas e ambiguidades que são inerentes a esta relação entre expressão e realidade.

Vazio gerado e vazio preenchido

A primeira característica do chavão é ser vazio de significado. Isso quer dizer que não é possível analisar o significado das palavras ou expressões para chegar a uma estrutura razoavelmente coerente. As palavras estão normalmente re-significadas e não correspondem mais ao seu uso tradicional, pois foram carregadas com emoções de adesão ou repulsa quase físicas. Gera-se assim uma caricatura de moralidade apelando apenas ao sentimento moral.

O vazio expressivo e de significado é preenchido, então, com os signos fornecidos pela cultura, o que é feito por meio de imagens, tanto visuais quanto retóricas, de propostas, soluções ou expectativas para o futuro. Quase todo mundo hoje em dia acredita que o futuro será melhor que o passado, por exemplo. Esta crença é facilmente utilizada para agregar valor a toda proposta que difira de algo que já existiu, favorecendo assim um círculo vicioso de mudança social.

A contradição

Outra característica é a contradição do enunciado com a situação de discurso. Por estar vazia de significado, as sentenças politicamente corretas têm somente o papel de estabelecer uma dualidade concorrente que coincida com o gosto do enunciador ou com a defesa do grupo ao qual pertence. Ambas podem ser representadas pela defesa de uma ideologia.

Exemplo: A defesa da tolerância pela utopia de uma sociedade igualitária: ora, tolerar é suportar as diferenças, o que pressupõe que existam. Como pode haver um mundo com igualdade (sem diferenças) e tolerância ao mesmo tempo, se sem diferenças não há o que tolerar? Obviamente frases como esta dizem respeito a aspectos tão gerais que não se aplicam a absolutamente nada, servindo mais como uma solução retórica para a indiferença que reina hoje em relação a tudo o que não seja a satisfação de uma auto imagem.

Estas contradições são muito frequentes no meio católico, entre clérigos e leigos progressistas adeptos de práticas criativas e críticas mas que, paradoxalmente, ficam indignados quando a criatividade e a crítica levam a algum tipo de tradicionalismo. Estes mesmos progressistas, ao mirarem o fogo aos tradicionalistas, criticam a afeição demasiada de fiéis aos “elementos visuais da fé”, como gestos, paramentos litúrgicos, etc, afirmando a necessidade de ouvir ‘Deus por meio do coração”, em um contato mais interno e menos externo, etc. Os mesmos progressistas, porém, aparentemente não vêem nenhuma utilidade nos gestos externos que empreendem como as suas mudanças litúrgicas aparentes.

Dualismo e inimigos imaginários

Para o politicamente correto, o mundo se divide entre os certos e os errados. Esquecem a complexidade do mundo e a dificuldade inerente à classificação e à descoberta da verdade. Quase sempre é necessário desenhar um boneco para espancá-lo depois, como o empresário ambicioso que odeia o meio ambiente, o carrasco que sente prazer em maltratar animaizinhos, o intolerante que odeia tudo o que é diferente dele, o “racista homofóbico”, o individualista que odeia tudo e a todos, e uma infinidade de estereótipos que dificilmente são nomeados ou apontados mas tidos como pressuposto ou inimigos imaginários. Essa tipologia dualista é necessária para a construção da auto imagem do politicamente correto e do seu grupo ou categoria.

Evidentemente, no Brasil alguns direitistas (especialmente liberais) ficam atentos a estes estereótipos, não para diferenciarem-se deles, mas para representarem o papel criado pelo politicamente correto. Neste sentido é que tenho dito que no Brasil o preconceito costuma acertar na mosca.

 

Como nos tornamos monstros desumanos?

Vivemos em um mundo que parece ter colocado as coisas menos importantes nos lugares de prioridade absoluta. Nunca se jogou fora tanto esforço, tempo e dinheiro em coisas como cirurgias plásticas, comida e cuidados para cães, jogos eletrônicos, cinema e TV, comidas gourmet, bicicletas e pornografia. Essas são as prioridades da vida de uma grande parcela da sociedade, a mesma que diz ter esperanças em palavras como paz, igualdade, tolerância, cidadania e democracia.

Ao mesmo tempo, nunca houve tanta barbárie. No Brasil, mata-se mais de 70 mil pessoas assassinadas todos os anos e, nos EUA, o aborto deixa um rastro de sangue de bilhões de vítimas inocentes, mortas no aparentemente seguro ventre de suas mães. E o pior de tudo: existe um turbilhão de recursos sendo investidos para ampliar as causas deste morticínio ao mesmo tempo que um discurso eufemizador tem logrado incutir na mente da opinião pública a idéia de que o genocídio de bebês significa ampliação de direitos.

Não é a toa que o século XX  viu surgir uma liberação sexual logo após um Holocausto genocida e enquanto mais de 100 milhões de pessoas estavam morrendo sob a bandeira vermelha do comunismo. Isso tudo nos leva à perplexidade, mas hesitamos em perguntar o porquê dessas coisas porque a resposta nos parece complicada demais. Vejamos se é mesmo complicada.

Desde o início das aglomerações urbanas, com o avanço dos meios de comunicação, as informações se tornaram rápidas e consequentemente a interpretação de textos e mensagens precisou agilizar-se. Essa agilidade, por sua vez, demandou uma simplificação e consequente superficialidade para narrar a realidade. A rapidez se tornou sinônimo de eficiência, e eficiência, sinônimo de avanço e evolução, coisas desejáveis. A cultura precisava também ganhar agilidade e ser acessível a todos e a mesma cultura sintetizada foi adequada aos meios eficientes. Numa sociedade baseada na eficiência, praticidade e utilidade, o interesses das massas passaram a ser de dois tipos: ou 1) divertir-se meramente para passar o pouco tempo que tinha livre, esquecer-se da vida dura do trabalho, ou 2) devia ser algo mortalmente útil e lucrativo ou que trouxesse progresso e evolução para a sociedade.

Não sobrou muito espaço para o aprendizado dos valores morais, o que pressupunha alguma contemplação e espiritualidade. A idéia de valores morais transformou-se gradativamente em mera formalidade familiar, escolar ou etiqueta social. A formação da personalidade restringiu-se, portanto, ao aprendizado de ofícios em uma sociedade cada vez menos espiritualizada e focada no “para que serve?”.

Ortega y Gasset, em seu A Rebelião das Massas, resume muito bem o que ocorre quando o homem massificado perde o interesse por compreender o seu lugar no mundo.

“Este homem-massa é o homem previamente esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas ‘internacionais'”.

Sem a compreensão dos valores que fazem a civilização, a tradição ou o povo a que pertence, o homem-massa se torna um solitário que só pode, como diz David Reisman, buscar encaixar-se na trama social do entorno. A perda da referência de valores tradicionais, regionais e da história de um povo ou lugar, o torna indiferente a tudo isso, pois quanto menos compreende menos sente falta. É importante lembrar que as nossas identidades mais gerais (sexual, regional, nacional, familiar e cultural) nos ensinam a descobrir nossa identidade pessoal.

Nos tempos em que a tradição dirigia a vida humana, era diferente. Todo ser humano sabia fazer parte de uma família ou clã, com suas tradições. Mais tarde, percebia-se inscrito a uma comunidade, com seus usos e costumes. Naturalmente, uma noção regional construía uma parte de sua personalidade e, por fim, a nacionalidade. Do mesmo modo, ele sabia pertencer a um tempo. Diz Julián Marias que uma sociedade só existe no tempo. Não há sociedade atemporal nem sem regionalismos. Estas características formadoras fazem parte do caráter dos indivíduos e têm a função de orientá-lo para perceber o destino pessoal. Em meio a todos estes pertencimentos, sejam espaciais ou temporais, o indivíduo percebe-se dono de uma individualidade. É daí que surge a noção de imortalidade.

Mais tarde, com o advento do liberalismo e dos ideais iluministas, do racionalismo, etc, o indivíduo apropriou-se do fazer-se humano e tomou as rédeas de seu destino que antes estava atado à tradição (segundo Reisman, é o introdirigido). Mas os homens donos do próprio destino duraram pouco diante da força centrífuga e aniquiladora gerada pelo processo de massificação.

O homem-massa, diz Ortega, “carece de um ‘dentro’, de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. É consequência disso que esteja sempre disponível para fingir ser qualquer coisa. Só tem apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem a nobreza que obriga”.

Os jovens de hoje são indiferentes não só à tradição da qual pudessem pertencer, mas à idéia mesma de tradição ou de pertencimento temporal, familiar. Isso porque ignoram e dão de ombros à história. Por acaso já viram um jovem contemporâneo, um adolescente, tratar com um senhor de idade? É chocante. O idoso é motivo de riso, de chacota da sua velhice.

O jovem de hoje (os da minha geração, especialmente) tem dificuldades de atenção, de concentração e, portanto, de leitura, porque deram de ombros ao que importava na infância e adolescência, optando pelos apetites diversos oferecidos especialmente à infância relegada a isso pelos adultos para que os deixassem em paz com seus afazeres. Educados diante da TV, do videogame e dentro de escolas que se julgam responsáveis por ensinar cidadania e socialização, aprenderam somente a odiar o outro e a agradar a si mesmos. Nada é mais importante do que a satisfação pessoal, o que se traduz no emotivo, psíquico, motor, sexual, gastronômico, enfim, numa energia geradora de uma alegria vazia e sem felicidade que, no entanto, chamam de felicidade. O vazio é consequência da perda dos meios de descoberta de uma missão particular e intransferível.

Uns encontram a pretensa felicidade na pura anulação de sentido, na fuga completa da realidade presente. Outros, na ilusão de atendimento às supostas necessidades do mundo, o que não deixa de ser fuga da realidade. Mas todos buscam distrair-se o máximo possível de tudo o que dê sentido à vida. Porque o sentido é pesado e doloroso, sem a base que renegou, por vezes incompreensível, confuso e inacessível. A forma mais eficiente de fugir dessa realidade é adotar como critério as pautas e os critérios colocados à disposição pela opinião pública, um instrumento massificador que foi aos poucos sendo adaptado às necessidades deste homem-massa neurótico que precisa fugir o tempo todo do sentido. A mídia fornece-lhe, como num mercado narcotizante, toda a referência que precisa para manter-se no papel que deseja representar.

Somente assim é possível, depois desta tenebrosa tragédia psicossocial, que os sujeitos prefiram proteger-se do vazio de não terem encontrado uma missão intransferível, pertencendo a grupos e lutando por pautas gerais, causas mundiais que os distraiam da profundidade da busca do que de fato devia fazer, das perguntas que devia responder a si mesmo. Nem mesmo a religião parece perceber a necessidade do sentido, que para o homem e jovem se materializa no desafio, e oferecem um Deus de amor, compassivo e que não pede nada além de um amor etéreo e impossível de conciliar com o sacrifício sobre o qual este indivíduo nunca teve notícia. O mesmo vazio, filho da indiferença com os valores espirituais, ri-se deste Deus insípido e permanece à espera de um desafio que dê sentido.

Assim é possível — e só isso explica — que diante dos agressivos militantes de causas como o aborto, a eutanásia e a pedofilia, os pretensos cidadãos de família prefiram deixá-los em paz no seu trabalho e optar por uma causa menos polêmica (como o saneamento básico), porque se as causas servem apenas para aliviar nossa tensão do vazio, não vamos nós querer atrapalhar o alívio dos outros. Fiquemos com o nosso.

Por que a Igreja Católica é o maior obstáculo à Nova Ordem Mundial

Os utopistas da Nova Ordem Mundial odeiam o Cristianismo como um todo, cujos princípios sempre serão opostos ao poder infinito do globalismo. No entanto, do ponto de vista jurídico, a Igreja Católica é o maior obstáculo ao poder globalista por pelo menos dois grandes motivos:
1) Base espiritual: Trata-se de uma instituição milenar de caráter espiritual e portanto importante coluna do direito natural no ocidente, fator essencialmente limitador de poder;
2) Soberania jurídica: Tem sede no Vaticano, um estado nacional soberano, cujos princípios influenciam o mundo de dentro para fora, mas nada a pode influenciar de fora por conta dessa soberania.
Estratégia
Uma das estratégias globalistas mais clássicas consiste na superexposição da Igreja e de sua organização de modo a enfatizar contradições e as tensões existentes ou não com o contexto mundial (contexto este que deve ser construído por eles), para assim gerar uma falsa necessidade de interferência do mundo nas questões internas da Igreja.
Walter Lippman, assim como muitos outros teóricos de mídia e de sociologia, chamava a atenção para a existência do que chamava de “pseudo-ambiente”, isto é, um contexto construído especialmente para servir de justificativa para ações efetivas e mudanças drásticas na estrutura do tecido social. Aqui podemos interpretar o pseudo-ambiente como a função de premissa, já que não precisa ser exatamente uma descrição contextual clara, mas manifestar-se em um questionamento que passe a ideia de ser representativo da humanidade e fazer as vezes de uma questão universal e candente.
É evidente que tudo o que se publica jornalisticamente sobre o Papa e a Igreja tem esse objetivo e o Vaticano sabe disso.  Embora em muitos casos a Igreja acredite (estando certa ou errada) conseguir aproveitar-se dessa exposição vendo nela uma oportunidade de levar sua mensagem ao mundo, o fato é que a premissa dessa exposição global está presente nos dois casos, ou seja, os agentes desta exposição dificilmente são os membros da Igreja, mas a mídia submissa ao globalismo. Já que a Igreja não detém eficientemente os meios de controlar o fluxo de exposição, tampouco o viés dos produtos midiáticos, resta a ela responder às questões levantadas pela mídia utilizando-se muitas vezes de premissas fornecidas pelo agente causador da exposição. A resposta da Igreja normalmente nem precisa ser distorcida pelos jornalistas, pois o fato da pergunta já é suficientemente um fator de subjugação da Igreja ao julgamento mundano, o que já caracteriza uma inversão profunda e imperceptível de valores no grosso da audiência. Claro que a situação se complica ainda mais quando até mesmo o próprio Papa parece raciocinar nos termos midiáticos e aparentemente apressar-se a responder e com isso reforçar uma postura de submissão avessa à verdade da fé cristã e da noção de autoridade (dependência exclusiva do Autor da vida). Isso não é uma exclusividade do Papa Francisco, mas o resultado de uma postura que a Igreja tomou há tempos, o que nos parece algo carregado de erros e de aparente ingenuidade, queremos crer.

 

Por outro lado, se há outra alternativa à Igreja a não ser responder às questões levantadas, dada a situação de impotência diante do colossal poder da grande mídia globalista, não nos caberia indicar, já que compreender o problema me parece o primeiro passo de qualquer tentativa de resolvê-lo. Isso nos deve auxiliar principalmente no julgamento e interpretação das notícias sobre a Igreja, o que deve ser feito levando em consideração seus efeitos e, portanto, seu agente, conforme um simples exercício de associação baseado na pergunta: a quem isso ajuda? Se ajuda aos globalistas e seu poder sobre as mídias já é atestado, claramente se trata de uma ação orquestrada para este fim. E sobre isso há bastante informação disponível que ateste a incrível capacidade das instituições e entidades globalistas de controlar os meios de comunicação. Basta ver o meu artigo sobre o Project Syndicate.

Exemplos temos em demasia. O primeiro deles e mais óbvio são as acusações de pedofilia na Igreja. É sabido que casos reais existem e devem ser combatidos. No entanto, é um traço típico da mentalidade dos meros consumidores de notícias não atentar-se para o contexto em que essas denúncias surgem ou de quem elas vêm. Em um mundo hiper-sexualizado, onde todas as taras sexuais, incluindo homossexualismo, pedofilia, necrofilia, zoofilia, já contam com entidades de defesa e proselitismo sexual vindo da própria ONU e UNESCO, onde a educação sexualizante para crianças tem sido empurrada goela abaixo de todos os países do mundo, nos parece bastante estranho que os mesmos agentes promotores destas obscenidades tentem colocar a Igreja Católica no centro do problema das taras sexuais. Trata-se de uma forma ardilosa de gerar uma falsa necessidade de o mundo fiscalizar a Igreja e sua estrutura, além, é claro, de distrair o mundo dos infindáveis escândalos de pedofilia na própria ONU que são denunciados pelo mundo a fora e superam em muito os da Igreja.

Embora este tipo de assédio jurídico-midiático ocorra com todos os estados nacionais, o Vaticano é o alvo prioritário, por ser o repositório ocidental do que chamamos de direito natural, isto é, a base jurídica que nos permite julgar se uma lei é justa ou injusta, por carregar valores pré-jurídicos. O caso da pedofilia na Igreja esconde ainda uma agenda dupla que é a questão do celibato clerical, algo odiado e cada vez menos compreendido, mas muito mais por força de uma contextualização construída e aceita pela maioria, na qual o ponto mais alto da satisfação humana está na sexualidade e na realização dos desejos. Desejos estes que, para os fins do direito positivo da Nova Ordem Mundial, devem servir de matriz às reivindicações de mais direitos. Só assim, o que se conhece como direito pode ganhar um caráter subjetivo, um passo importante na direção da relativização do direito e, portanto, no sepultamento dos conceitos universais. Afinal, sendo o homem escravo dos próprios desejos, toda a força dispendida à sua realização irá inevitavelmente na mesma direção de conceder aos legisladores mais e mais poder para que garantam seus direitos. Uma artimanha tão velha quanto letal.

Outro exemplo muito claro é a cobertura e a atenção dada pela mídia ao Sínodo dos Bispos, cujo tema foi a família. A expectativa da grande mídia coincide com agendas da ala modernista da Igreja, como a comunhão de recasados (no fundo, mirando no dogma da indissolubilidade do casamento) e a aceitação de uniões entre pessoas do mesmo sexo, o que pressupõe, de fundo, a relativização do conceito de família como algo universal e independente de convenções sociais ou culturais. O maior obstáculo a estas causas é, novamente, o direito natural que, longe de ser um simples paradigma jurídico, é a base sobre a qual se construiu a noção mesma de direito e de democracia ocidentais.

Como vemos, não é possível julgar as notícias pelo seu conteúdo mas pela agenda que ela atende. Muito embora fatos expostos tenham um fundo de verdade, a verdade maior está na malícia dos difusores da informação e não na informação em si. Informações são uma parte muito pequena de uma notícia. O seu miolo, isto é, a sua alma é a intencionalidade, seja de informar ou transformar, dada a amplitude dos efeitos que advém da difusão dos fatos. Afinal, inevitavelmente a difusão de fatos gera novos fatos. Quem controla a difusão evidentemente detém uma parte importante do poder de interpretação sobre os novos fatos gerados.