Arquivo da categoria: Uncategorized

Arquétipos do cinismo nacional

Rafael DiógenesO Cinismo, na Grécia, foi uma escola filosófica, embora anti-filosófica, que se inspirava entre outras coisas na vida dos cães como modelo a ser seguido. Os cínicos brasileiro se assemelham em muito nessas disposições, embora tenham suas especificidades que os diferencia da propensão a qualquer reflexão.

Rosenstock-Huessy, em A Origem da Linguagem, diz que uma revolução começa com um problema de linguagem. Quando gerações, facções ou classes, não se compreendem, não falam mais a mesma língua, irrompe a revolução. Levando isso à literalidade dos conflitos que vemos no Brasil, podemos dizer que toda guerra civil é precedida por mudanças culturais, cujo pior aspecto é o da dissolução cognitiva, precedida por uma vertiginosa precipitação ao abismo da imoralidade mais profunda.

Mas este tipo de percepção está longe daquela ideia muito difundida ultimamente de que todos estão errados e malucos, brigando entre si como animais irracionais. Quem faz este tipo de queixa está somente tentando abrandar a própria indiferença dando-a um ar de neutralidade superior. Falo da guerra pura e literal, que tem a confusão como arma, mas que se caracteriza pela proeminência do mal objetivo, manifestado por movimentos que buscam isso declaradamente em suas teorias. Dizer que “há exageros de todos os lados” é fingir que não vê o mal, é omitir-se e tornar-se com isso parte do problema. E existem muitas formas diversas de se passar por este tipo de “isentão” superior.

O isentão cínico diz que está por cima do bem e do mal por não aderir a nenhum lado do conflito. Com isso, colabora ativamente com o pior dos lados, aquele que visa confundir e induzir ao erro.

Faz tempo que o Brasil está em guerra. Mas a guerra cultural tem essa característica de dissipar os antagonismos através de uma espécie de deterioração gradativa da cognição. Quando bem coordenadas, mídia e sistema educacional, juntos, se transformam em verdadeira arma de guerra, tornando os indivíduos meros propagandistas disfarçados de cínicos ou apolíticos. No fundo, o apolítico pratica o servilismo mais animalesco, como verdadeiras bestas puxando carroças cheias de lixo ideológico para seus mestres intelectuais que os açoitam dia e noite, num círculo infernal que tenta arrastar o país rumo ao despenhadeiro da loucura.

Apolítico

Falo dos cínicos porque há bem pouco tempo, no Brasil, esta era a principal face do esquerdista, manifestado pelo petista. Mas hoje há o cínico que se diz apolítico. Para ele, nada é nada e o tudo não existe. No fundo, é a crença no pressuposto marxista de que todo mundo age por uma ideologia igual e simetricamente, burgueses e proletários. Não que o cínico se importe com a injustiça. Não. Longe dele! Isso seria converter-se num hipócrita, já que para ele não há justiça. Para o cínico, todo mundo está perdendo tempo em existir e só ele próprio é que tem a presença de espírito de rir-se da falta de sentido da existência dos outros sem perceber que ri da própria incapacidade de ver a realidade. Ele não percebe a realidade porque desistiu voluntariamente dela, achando que com isso estava sendo o mais esperto e astuto de todos. O menos hipócrita.

Mas este cinismo é só a ponta do iceberg, é apenas uma marionete do relativismo cultural e moral, consequência de décadas de apatia cognitiva. Todo mundo tem um amigo que nunca estudou assunto nenhum mas que, de repente, neste momento de acirramento político, surge das sombras de sua ignorância munido de opiniões prontas e com alvo certo. Alvos que repetem coincidentemente as opiniões mais repetidas e os chavões mais batidos saídos de formadores de opinião da mídia ou da boca de totens acadêmicos.

Anti-corrupção

Há os que se atiram a jargões anti-corrupção, como se o roubo dos cofres públicos fosse crime muito pior do que os que atentam à vida humana por meio da adesão a ideologias assassinas. Escandalizam-se e bradam em afetada indignação com o desvio de verbas, a má gestão de obras, a irresponsabilidade fiscal, etc. Refugiam-se nestes assunto menores com medo de admitir o mal maior existente nas esferas mais sérias. Preferem brincar de analistas e repetir o tom dos formadores da mídia, que o fazem por estratégia política e não por convicção. Gostam de saber que um vereador desviou sacos de cimento da ponte do valão do bairro, e não dão a mínima se o país é governado por um organismo internacional que quer aprovar o aborto e destruir as famílias. Ama os números e está preocupadíssimo com a taxa de juros, enquanto em seus filhos aprendem na escolas sobre a variedade infinita das taras sexuais humanas e as possibilidades de experimentá-las.

Liberal

É comum ainda que esta espécie de cinismo isento manifeste suas ideias de modo irônico, sarcástico e por vezes com uma crueldade de dar inveja a esquerdistas acadêmicos acostumados à mendacidade mais torpe. Pois buscam representar voluntariamente o arquétipo criado pela esquerda. Quem recebeu uma educação marxista só pode, na melhor das hipóteses, tornar-se um liberal desprovido de toda moral. É assim que se faz uma guerra. Os homens quando confrontados com a ignorância do que deviam saber, encurralados por um estilo de vida omisso, tornam-se recalcados formidáveis. O liberalóide ou libertário, por exemplo, cínico por excelência, coloca-se a uma distância segura de todos os códigos morais para então julgá-los com a moralidade de aluguel que venera como a mais santa e imaculada das intenções.

O liberal só quer defender o mundo utópico de sua mente, que só existe por analogias pobres porque carecem do elemento mais importante para qualquer reconstrução racional da realidade: o ser humano. Embora diga falar em nome da “ação humana”, fala de uma ação abstrata que representa uma parcela ínfima das possibilidades humanas e, com isso, imagina possível um mundo em que só isso exista. Afinal, toda vantagem que possa existir no funcionamento econômico humano decorre, não de princípios econômicos, mas dos valores morais com os quais as pessoas o aplicaram na realidade.

Casto

Quase sempre o isentão, como tem sido chamado, apresenta-se sob variados trajes. A personalidade acuada por sua própria omissão e covardia não escolhe rótulo e pode se ocultar até mesmo em castas prelazias católicas, adornadas pelo erudito distanciamento que oculta, no fundo, o amor e a veneração que cultivam pelo empreguismo mais utilitarista, as posições sociais que angariaram mediante um concurso de indicações de seus caríssimos nobres colegas. O culto a admirados e admiradores são sua base psicológica cujo ícone pode ser representado pelo mercado, a tradição, a moral, a caridade… Mas que no fundo representam o amor pelo próprio traseiro, cheio de favores pendurados e prometidos. Diferente do cínico apolítico, este arquétipo não sabe que é cínico. Faz da sua omissa culpa interior um disfarce de humilde servilismo. Histericamente, dizem entregar-se a práticas religiosas para não sobrar-lhes tempo de fazer algum bem que não seja a indicação, o favorecimento dos seus caríssimos para algum lugar estratégico, de onde não fará nada além de manter-se omisso e enriquecendo, com a imagem pública bem protegida dos riscos de difamação e consequente perda do amado emprego público.

Nenhum destes arquétipos é cristão ou mesmo humano no sentido pleno da palavra. Apenas no sentido de sua miséria mais típica e característica, aquele que precipitou no pecado que decorreu a Queda. Embora diferente de Adão, não titubeia diante da baixeza. São ratos que se amontoam nos corredores apertados do labirinto de sua histeria, da sua neurótica busca por conforto. Animais que não fazem mais do que fugir da dor e buscar o prazer no alívio de suas consciências.

O isentão e o cínico, irmãos gêmeos e por vezes fundidos e confundidos, preferem sempre a desculpa que alivia a consciência do que o confronto com a tensão que os deprime. São no fundo pobres deprimidos e deprimentes, que precisam torcer a moralidade para aderir a ela sem constrangimento.

Os problemas morais e psicológicos desta classe de pessoas, embora sejam para eles um drama insolúvel e digno de nossa comiseração, servem bem ao intuito de um dos lados, casualmente o pior.

Desde o engomadinho que sai da missa maldizendo o excesso de pobres nas ruas, até o desleixado liberal que se vangloria de não se sua indiferença, estes arquétipos só podem existir devido um clima psicológico que põe o país inteiro refém de expedientes de pensamento abstrato, cuja máxima virtude é a adesão a mundos utópicos (mesmo que a utopia seja um mundo livre de utopias). Ambos os tipos estão muito abaixo de classificações de caráter social, como o de David Riesman, que propõe distinções conforme eras populacionais. Embora se aproximem do “alterdirigido”, aquele que se orienta pela própria carência de atenção do outro, este arquétipo nacional do anti-politizado é como um “baixodirigido”, isto é, orientado por baixo, pelo que é inferior. É o viciado na própria opinião que, já anestesiado pelas próprias e alheias mentiras, repete-as roboticamente conforme o desejo de parecer inteligente.

Faltou falar dos policialescos que gostam dos jargões “bandido bom é bandido morto”, clamam por intervenção militar, pintam-se de verde e amarelo, cantam o hino e tapam os ouvidos para as notícias ruins. A disposição a não saber do que não gosta, porém, está em todos os arquétipos do cinismo nacional.

 

Conversa com Alexandre Magno

A conversa que tive na Radio Vox com o advogado Alexandre Magno Fernandes Moreira, procurador do Banco Central em Brasília e consultor jurídico da ANED (Associação Nacional de Ensino Domiciliar), já está disponível no Soundcloud. Falamos sobre seu livro Direito Penal Contemporâneo e também sobre a legislação educacional brasileira quanto à prática do homeschooling.

O buraco esquecido da rua

No jargão do jornalismo, “buraco de rua” é a típica pauta insignificante relegada aos inexperientes ou inexpressivos na atividade do relatório social jornalístico, mas que é o grosso do cotidiano das redações, o que o jornalista mais odeia quanto mais precisa fazê-lo. No entanto, mil anos de reportagens acumuladas sobre o descaso da prefeitura ou do estado com as ruas e a urbanização jamais produziriam um único retrato psicossocial do que causa esse fenômeno tipicamente brasileiro, que no fundo reflete a profunda fossa psicológica em que o Brasil está enfiado.

O buraco da rua não é o problema. O descaso político não é o problema. O problema está em nós, tanto naqueles que incomodam quanto nos que se sentem incomodados. O problema está no profundo senso de inferioridade diante da fatalidade de todo tipo de desgaste físico, degradação humana ou espiritual, a falta de esperança no homem e na humanidade como força de trabalho. Não é a toa que ao mesmo tempo que desistem da limpeza e do cuidado com o ambiente urbano, almejam um controle do equilíbrio de todo o ambiente da Terra. A busca neurótica pelo controle de tudo parece fruto de uma depressiva resignação diante da podridão e da sujeira que nos envolve. O Brasil é um aterro sanitário a céu aberto. É só olhar outros países para ver o quão atolados estamos no lixo produzido pelo homem e pela própria natureza.

Falo do Brasil no geral, mas coincidentemente penso nisso quando viajo ao meu estado, o Rio Grande do Sul, mais especificamente o litoral norte e a capital. A impressão que tenho é que o povo gaúcho é um povo que perdeu passivamente a luta contra a natureza, contrariando milênios de história de esforço e luta da humanidade. Todo tipo de desgaste físico do meio é tolerado resignadamente como algo inevitável ou de difícil resolução. É o mato que cresce às calçadas, a areia da praia que acumula-se nas ruas, o fungo que corre solto sobre prédios cuja história guarda glórias e vergonhas; os portões de ferro das residências destinados a proteger o patrimônio cedem bovinamente diante da invencibilidade da ferrugem.

Como eu disse, falo do Brasil, mas uso parte do Rio Grande como exemplo. Isso porque, como tenho dito, o pior preconceito sofrido pelos estados do Sul é aquele que os superestima, que os julga mais evoluídos. Se alguns sulistas ainda acreditam no legendário ditame de que o sul carrega o Brasil nas costas, devia cogitar a possibilidade destes estados serem na verdade o peso que mantém o país atado ao atraso.

Mas o que quero dizer é sobre a verdade por trás do buraco na rua, uma figura tão comum em todo o território nacional. Não é, como dizem, por culpa dos políticos. Nem dos burocratas. Sejam de quem for as mãos sobre as quais se encontram o problema em qualquer tempo, a alma do buraco é o homem. O desgaste e a degradação são humanos. Isso porque a queda, aquela que nos expulsou do Paraíso, sempre esteve viva e atuante sobre nós. Basta que natureza faça seu trabalho. Nossa natureza aponta para a baixeza e a indolência, mas também para o sublime e o eterno. Mas basta a natureza seguir seu curso e não ser interrompida que a fatal gravidade da entropia nos faz perecer.

Diferente do que foi pregado pela modernidade, o homem não é o controlador da natureza, mas parte dela. Como pode ele almejar o equilíbrio ecológico se esta desordem é parte da queda que fez sucumbir toda a criação ao rio carontico da degradação. O homem é o ordenador da natureza sim, mas daquela que o rodeia, daquela que é o seu próximo. Não a mera consciência social (ou socialista) de um dever cívico, mas o zelo com o trabalho que o mantém civilizado para o melhor exercício da sua humanidade. A natureza, como chama a ciência, é um instrumento e não um bem em si mesmo, pois se assim o fosse bastaria-nos o panteísmo dos filósofos hereges. É o utilitarismo dos modernistas que transforma o instrumento em coisa execrável e inumana. O instrumento é um presente. O instrumento é um meio.

Deus não nos concedeu um “equilíbrio ecológico” meramente físico, mas uma ordem divina que nos inclui e da qual pode excluir-se o meramente físico, o superficial. O buraco da rua, assim como tudo o que representa, é a renúncia à participação da ordem divina e a aceitação do caos da ação irracional da natureza do factível. Eis o motivo pelo qual o desleixo e a indolência são graves ofensas a Deus por meio de uma ofensa à própria condição humana.

A lei da entropia já nos devia dizer o suficiente sobre os mitos evolutivos e as crenças otimistas no futuro da humanidade. Também nos deveriam alertar sobre as expectativas apocalípticas que tornam o fim dos tempos algo tão inesperado. A decadência é a regra da natureza decaída para a qual o homem pode representar o sopro da ordem divina ou a simples resignação que compactua com o caos.

Violência pacifista

A ideologia do pacifismo visa desarmar moral e psicologicamente as pessoas deixando-as sem defesas diante do avanço destrutivo sobre as estruturas sociais. O pacifismo pode se manifestar em uma retórica que age sobre a psique para preparar pessoas à aceitação ou que abrem o caminho para a perda de critérios morais deixando o indivíduo indefeso diante da sugestão da sua própria ruína. Continuar lendo Violência pacifista

Meios de transformação social (parte 2): Norbert Weiner e a matemática do caos

web_DER_Norbert Wiener--469x239Muitas das técnicas e inventos fabulosos para a manipulação das massas aperfeiçoados durante a Guerra Fria foram estabelecidos no período mais imediato à Segunda Guerra, época de sucessos técnicos nas áreas militares. Retornando algumas décadas antes de Sola Pool, em 1948, ano do lançamento do trabalho de Shannon sobre a Teoria Matemática da Comunicação, surge o livro Cybernetics or control and communication in the animal and machine, de Norbert Wiener. Muito mais imaginativo e revolucionário do que qualquer matemático ou cientista político que veio depois, Wiener previa que a matéria-prima da sociedade futura seria nada menos que a informação. Continuar lendo Meios de transformação social (parte 2): Norbert Weiner e a matemática do caos

Ideologia e o silêncio em espiral

A teoria da espiral do silêncio foi pensada pela cientista política Elisabeth Noelle-Neumann e diz respeito ao silêncio provocado pelo esforço social das pessoas em adequarem-se a uma determinada orientação opinativa que acreditam ser hegemônica. Diz-se “acreditam” pois pode ou não ser hegemônica. A primeira condição para que ocorra este fenômeno é o desejo, o anseio psicológico pela sociabilidade ou o medo do isolamento social. Obviamente que este medo vem de uma situação ou sensação de situação de dependência ou fragilidade diante da opinião massiva ou do efeito dela. Parecendo-nos impossível saber o que pensa a maioria, o esforço em diagnosticar o clima de opinião parece, portanto, infrutífero. Cansado, o indivíduo desiste e conforma-se ao pensamento hegemônico. Continuar lendo Ideologia e o silêncio em espiral